Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Prefeitura quer colocar morador de rua em imóveis desocupados no centro

Donos de prédios vazios serão convidados, por meio de chamamento público, a custear reforma e ceder apartamentos

Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

27 Janeiro 2018 | 03h00

SÃO PAULO - A gestão João Doria (PSDB) pretende iniciar em março um programa para abrigar moradores de rua de São Paulo em prédios desocupados da região central. A Prefeitura publicará chamamento público para atrair donos de imóveis interessados, que, em troca, terão abatimento de dívidas de Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e deixarão de pagar IPTU Progressivo, a cobrança extra para imóveis vazios.

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Os moradores de rua serão incluídos no programa de locação social de São Paulo, que está sendo reformulado. Levantamento feito pela Secretaria Municipal de Habitação e pela Companhia Metropolitana de Habitação (Cohab), responsáveis pelo programa, aponta cerca de 370 prédios elegíveis para o projeto. O Plano de Metas de Doria prevê a criação de mil unidades habitacionais.

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Paralelamente, a Prefeitura vai reformar sete imóveis da Cohab, para incluí-los na locação social, somando 441 unidades. Por meio de convênio com o governo federal, a gestão espera R$ 50 milhões da União para as obras.

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Na locação social, o beneficiário paga um porcentual de até 15% de sua renda para a Prefeitura e ganha, em troca, o direito vitalício do uso do imóvel, mas sem direito à propriedade. O secretário de Assistência Social, Filipe Sabará, afirma que a proposta é destinar as unidades aos moradores de rua que já têm alguma renda, inscritos em programas sociais. “A ideia é ser a porta de saída para aqueles que já estão em albergues e têm renda por meio do programa Trabalho Novo (que oferece emprego a moradores de rua).” 

Em São Paulo, a locação social existe desde 2004 e conta com seis imóveis (903 apartamentos). São unidades criadas para casos específicos, como idosos e ex-moradores de favelas - não para moradores de rua. A Cohab tem um programa de resgate de inadimplentes para evitar despejos, que são raros.

Programas similares existem mundo afora. Um dos pioneiros sãos os projects, prédios reconhecidos pelas paredes de lajota, criados em Nova York nos anos 1930. Em Londres, a locação social é feita por subsídios.

Síndico

Segundo o secretário da Habitação, Fernando Chucre, a diversidade de perfis dos moradores de rua exigirá testes para definir o modelo de administração predial ideal. A escolha do modelo é tida como vital para evitar a favelização desses espaços. “Em uma unidade, vamos fazer a gestão direta, pela própria Cohab. Em outra, vamos testar a gestão por uma Organização Social (OS). Tentaremos também a gestão de uma empresa privada e uma unidade com autogestão, feita pelos próprios moradores”. O acompanhamento de cada unidade definirá a organização no interior desses prédios no futuro.

Chucre, entretanto, afirma que também será testado um modelo chamado housing first, que consiste em dar casas para pessoas que têm resistência a qualquer tipo de abordagem do poder público - aqueles sem renda, que vivem de esmolas. “Vamos testar e iremos acompanhar”, afirma.

O padre Julio Lancelotti, da Pastoral do Morador de Rua da Igreja Católica, afirma que o modelo pode ser algo positivo para a cidade. “Desde que não seja a única opção. Afinal, são mil moradias para uma população de quase 20 mil pessoas.” O padre destaca também que os modelos de zeladoria dos imóveis “têm de preservar a autonomia” dos moradores. “Não são todos que têm uma renda que possa ser usada para pagar a cota deles do aluguel”, destaca. 

 

Imóveis

O presidente da Cohab, Edson Aparecido, afirma que “a legislação permite o abatimento do IPTU” para os imóveis que atenderem ao chamamento, mas um projeto de lei específico será enviado à Câmara Municipal. Os imóveis interessados terão de fazer reformas, custeadas pelos proprietários, para tornar os prédios habitáveis. O valor das obras também poderá ser abatido da dívida.

Pontos-chave

A locação social em São Paulo

O projeto

Existe desde 2004 e atende 903 famílias. Essas pessoas pagam até 15% da renda para morar em apartamentos da Prefeitura. O condomínio custa até R$ 40.

A mudança

O programa será alterado para se voltar à população de rua, preferencialmente aqueles que têm alguma fonte de renda por meio de ações de inclusão.

Expansão

Para criar mais moradias, a proposta é oferecer abatimento de dívidas de IPTU para prédios vazios do centro, que seriam reformados para aderir à proposta.

Construções

Paralelamente ao cadastro de prédios vazios, a Prefeitura pretende reformar sete imóveis próprios, com recurso federal, e criar 441 apartamentos.

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Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

27 Janeiro 2018 | 03h00

SÃO PAULO - “Foi da minha janela que, hospedado aqui um dia, Caetano (Veloso) olhou para a esquina da Ipiranga e da São João e compôs Sampa”, diz, séria, a atriz, produtora e diretora teatral Valéria di Pietro, de 67 anos. “Mas é claro que isso é mentira”, continua, dando risada.

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Ela é uma das moradoras do Palacete dos Artistas, prédio da Prefeitura na Avenida São João, onde já funcionou o Hotel Cineasta, e que hoje é um dos imóveis do programa de locação social da Prefeitura. O prédio, inaugurado na década de 1920, é um bem tombado de propriedade do Município destinado ao programa de locação social de São Paulo desde 2014. 

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O espaço, de cinco andares, é habitado majoritariamente por artistas do teatro independente que viviam em ocupações. “Na nossa área, não é todo mundo que vai parar na TV. Quando vamos ficando velhos, os papéis acabam”, conta Valéria, que vive em um apartamento repleto de plantas, quadros nas paredes e estantes com livros e filmes. Mas ali há também outras pessoas, não artistas, que conseguiram se inscrever no programa. São 50 unidades habitacionais ocupadas por 60 moradores.

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O prédio é tido como o melhor exemplo de locação social da cidade, com a gestão feita em parceria entre a Companhia Metropolitana de Habitação (Cohab) e os próprios moradores - em outros prédios, a Prefeitura enfrenta invasões de não inquilinos e até ação de criminosos.

Gestão

Valéria e a também artista Maithê Alves, de 76 anos, que vive em um apartamento vizinho e igualmente aconchegante, são as responsáveis por manter o Palacete do Artistas organizado. “Fizemos um teatro no primeiro andar, biblioteca, ateliê, lavanderia e uma sala de leitura onde queremos montar um cineclube”, conta. 

Mas a organização não é tarefa fácil. No primeiro andar, as salas ficam trancadas por causa dos furtos, frequentes. “Aqui tudo some”, explica Maithê. “Tinha uma pessoa que trazia pessoal da Praça da República para cá, e eles usavam drogas”, diz.

Os conflitos com a Cohab, que recolhe a taxa de condomínio, são constantes em função da zeladoria. Mas as moradoras não fazem reclamações mais incisivas ao comentar goteiras, falta de lâmpadas e outros pormenores que surgem na administração predial. Também não se queixam das dificuldades de convívio com os vizinhos. “Nós, artistas, já nos conhecíamos, somos uma família. E as demais pessoas que estão aqui convivem bem conosco”, conta Valéria.

 

 

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