Prefeitura assentou moradores há 30 anos

Poder público instalou 50 famílias no Laboriaux, no alto da Rocinha, e agora quer retirar todos os moradores do local

Roberta Pennafort, Felipe Werneck, O Estado de S.Paulo

10 Abril 2010 | 00h00

Três décadas depois de assentar cerca de 50 famílias no Laboriaux, no alto da Favela da Rocinha, zona sul do Rio, a prefeitura quer remover os moradores da localidade, que cresceu bastante no período e avançou sobre a área de mata. Após a destruição causada pelo temporal de segunda-feira, o prefeito Eduardo Paes (PMDB) anunciou a decisão de realocar os moradores do Laboriaux e do Morro dos Prazeres, no centro.

A dona de casa Angelita da Silva, de 65 anos, lembra-se bem de quando foi levada para o Laboriaux, em 1982. Ela morava junto a um valão, na parte baixa da Rocinha, e teve de sair para que ali fosse construído um canal. No Rio desde os anos 60, a paraibana conta que a parte mais alta do Laboriaux, onde há três dias duas pessoas, mãe e filha, foram soterradas por um grande deslizamento de terra, era um matagal na época. "Aqui tinha só umas 70 casas, e depois foi chegando cada vez mais gente e subindo mais o morro", conta Angelita, que deixou ontem a casa.

Rachadura. Luziane da Silva, de 32 anos, filha dela, mora em outro imóvel no mesmo terreno. Ambos foram interditados à tarde pela Defesa Civil. Na sala de Luziane, uma rachadura no chão denuncia que não há mais condições de ficar. Mas, como muitos ali, ela não tem para onde ir.

"Sou mãe. Nessa casa criei meus filhos, de 15, 11 e 4 anos. A sensação que tenho é de não ser ninguém." As casas das duas, assim como todas as que ficam na Rua Maria do Carmo - cerca de 80 -, foram evacuadas.

Os moradores foram informados de que não poderão voltar. Cadastradas, as famílias serão assistidas pela Secretaria Municipal de Assistência Social e receberão um auxílio-aluguel no valor de R$ 250 durante três meses. Elas terão prioridade no programa Minha Casa, Minha Vida, parceria entre os governos federal e estadual.

Sem informação. O problema é que nem sempre a localização desses imóveis agrada. Na Rocinha, a doméstica Sandra Regina Gomes, de 50 anos, está pertinho do trabalho, no Jardim Botânico e nem pensa em se mudar. "Ninguém dá uma posição. Estou desde segunda-feira sem dormir, com medo de morrer e de perder a casa", comenta ela, que considera o Laboriaux - o nome vem de uma companhia francesa que era dona do terreno na primeira metade do século passado - o melhor lugar em que já residiu.

A Defesa Civil Municipal interditou 219 casas em toda a Rocinha. Ainda serão avaliadas as condições dos imóveis para se determinar quais voltarão a ser ocupados. O líder comunitário Raimundo Souza estima que somente no Laboriaux vivam 4 mil pessoas. As duas mulheres que morreram haviam sido avisadas de que existia risco de desmoronamento, e se preparavam para deixar a casa quando foram soterradas.

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