Preconceito e descaso são barreiras no transporte público

Preconceito e descaso são barreiras no transporte público

Motoristas de ônibus evitam parar para mais velhos; estações de trem e metrô têm problema [br]de acessibilidade

Edison Veiga, Filipe Vilicic e Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

04 Abril 2010 | 00h00

Há uma gíria muito difundida entre motoristas e cobradores de ônibus: o 69. "Não é o que você está pensando", brinca José Roberto Mariano, secretário executivo do Conselho Estadual do Idoso (CEI). "É o jeito de dizer que só tem idoso no ponto. Muitos condutores não param porque somos tidos como incômodo, por demorarmos para entrar nem pagarmos passagem."

Para o conselho, assim como para especialistas e idosos, os problemas de mobilidade - como a precariedade do transporte público e das calçadas - estão entre os que mais afetam a terceira idade paulistana.

"Pedimos audiência com o governador para procurarmos soluções, mas não tivemos resposta", afirma Terezinha Aparecida Teixeira da Rocha, presidente do CEI. O órgão aponta incômodos nas estações e nos trens da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e do Metrô. "Para ir ao banheiro da Júlio Prestes, por exemplo, tenho de subir uma escada imensa, intransponível para muitas pessoas de idade", reclama a servidora pública Guaraciaba Brandão, ex-conselheira do CEI.

Das 56 estações do Metrô, 13 não foram adaptadas para receber idosos e deficientes, como a Paraíso e a Vergueiro. O governo garante que todas estarão adequadas até dezembro. E promete rebaixar as calçadas nas faixas de travessias, no entorno das estações e nos terminais urbanos.

Na CPTM, a situação é pior. Apenas 18 das 89 estações são completamente acessíveis, só 26 contam com elevadores e 32 têm banheiros adaptados. "Há algumas que são inacessíveis para qualquer idoso com mobilidade reduzida", aponta a presidente do CEI. "Outro empecilho é o vão entre os trens, que dificulta o acesso para quem não consegue estender a perna." O Estado se compromete a adaptar outras 22 das estações da CPTM até 2011. Há estudos também para diminuir os espaços entre as plataformas e os trens do Metrô.

"Os problemas de mobilidade afetam todos os outros setores", afirma Oded Grajew, do Movimento Nossa São Paulo. Segundo a entidade, só 26% ônibus da cidade, ou 3.936 veículos, são acessíveis. E apenas 500 dos 30 mil quilômetros de calçadas são adaptadas, segundo levantamento da vereadora Mara Gabrilli (PSDB). "De que adianta ter uma casa de shows ou um parque adaptados e com atividades se não conseguimos chegar lá?", questiona Grajew. "Também é preciso mudar a mentalidade dos que prestam os serviços, como motoristas de ônibus, e dos cidadãos, que não nos valorizam e veem o idoso como alguém que atrapalha."

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