Porteiro se muda para outra encosta

Após deixar o Morro do Bumba, família alugou casa em área com risco de desabamento

Gabriela Moreira, do Rio, O Estado de S.Paulo

13 Abril 2010 | 00h00

A distância entre o Morro do Bumba e o bairro Tenente Jardim, ambos em Niterói, é de cerca de 5 km. Percurso que o porteiro Ronaldo Trindade, de 43 anos, estava disposto a fazer carregando uma caixa d" água de mil litros na cabeça. Ontem, às 10h30, ele retirava os objetos que sobraram da casa em que morava, soterrada pelo deslizamento. Seu destino era o bairro vizinho, onde ele e 11 familiares passaram a morar. O imóvel, com dois quartos, foi alugado por R$ 250.

Após percorrer cerca de 1 km, Trindade desistiu de levar a caixa d"água na cabeça. Contratou um carreto por R$ 40. "Comprei a caixa por R$ 270, pagos em três vezes. Eu tinha acabado de pagar", disse o porteiro, cuja família conseguiu se salvar graças ao que ele considera como "um sinal". "Na chuva do início do ano (quando os estragos foram maiores em Angra), a terra derrubou os quartos, a sala e o banheiro. Para reformar, tirei minha família", afirmou.

Na quarta-feira passada, quando as casas do Bumba vieram abaixo, ele já tinha reerguido a sala e os quartos. "Eu estava dormindo, mas acordei com o barulho e saí para ajudar os vizinhos. Foi o que me salvou", contou.

No bairro Tenente Jardim, a casa que alugou foi mais barata, pois fica em uma encosta, cujos moradores já estão abandonando. "Já vi que aqui também não terei muita tranquilidade, mas foi o que consegui alugar na pressa", disse. Imóveis com menor risco de desabamento estão custando R$ 500 no mesmo bairro, valor que Trindade não tem como arcar com os R$ 870 que recebe mensalmente de salário.

Ontem, após levar a caixa d" água para a nova casa, Trindade e a família se cadastraram na prefeitura de Niterói. Ele e centenas de moradores da mesma comunidade têm a esperança de receber o Aluguel Social - pagamento que pode variar entre R$ 250 e R$ 400 - enquanto novas residências não são construídas.

Urubu. Sentada nos escombros da casa em que viveu por 50 anos, Maria Luiza Ribeiro assistiu à demolição de 250 domicílios em áreas consideradas de risco no Morro do Urubu, em Pilares, zona norte do Rio. A favela é a primeira das oito a serem parcialmente desocupadas pela prefeitura. A dona de casa e 10 parentes não resistiram às ordens da prefeitura, que vistoriou os imóveis e determinou a saída dos moradores. "Estou muito triste, mas decidimos sair por causa das crianças", afirmou.

Nos temporais da semana passada, três deslizamentos de terra sem vítimas provocaram rachaduras nas paredes e no chão de algumas casas do morro, o que fez com que a Defesa Civil interditasse os imóveis. As famílias removidas foram para as casas de parentes e para abrigos e poderão se cadastrar no bolsa aluguel, no valor de R$ 400.

No início da tarde, quem teve tempo de retirar seus pertences antes das demolições convocou parentes e amigos para carregar móveis, eletrodomésticos e até as esquadrias das janelas, arrancadas à força, enquanto escavadeiras começavam a colocar abaixo as construções. "Tirei tudo de casa - até as plantas que estavam lá. Pagamos R$ 650 para transportar os pertences de três famílias", contou o auxiliar de escritório Edenir Moreira, de 58 anos. / COLABOROU BRUNO BOGHOSSIAN

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