Por até R$ 60 mil, bustos agora homenageiam gente viva

Fundadora de museu e até surfista já inspiraram obras; artistas plásticos afirmam que mercado está aquecido

, O Estado de S.Paulo

17 Abril 2010 | 00h00

Essa é para os talentos que se angustiam sem saber se vão obter reconhecimento depois da morte. O mercado de bustos de gente viva nunca esteve tão aquecido. Cresce muito nos ateliês de escultura a demanda por peças criadas para imortalizar entes que ainda não se foram.

"Cerca de 40% dos meus pedidos são peças para homenagear pessoas vivas", diz o artista plástico Otávio Mendes Neto. Ele conta que, há dez anos, fazia dois bustos de gente viva por ano; hoje, são mais de 23. Com pedestal, plaquinha e apotegma (frase sobre o retratado).

Não é uma homenagem barata. Mesmo que o artista seja desconhecido, o busto não sai por menos de R$ 10 mil. Os medalhões chegam a cobrar R$ 60 mil. Feitos de preferência em bronze, as peças ficam prontas em pouco mais de um mês.

O da fundadora do Museu Brasileiro da Escultura (MuBE), Marilisa Rathsam, demorou um pouco mais porque ela pediu à escultora Maria Clara Fernandes que aparasse os cabelos de bronze, depois da obra pronta.

"Tinha feito uma coisa meio Marilyn. O penteado mudou um pouco, mas o rosto é o mesmo", diz Maria Clara, que cobrou R$ 20 mil. Sua experiência anterior com bustos vivos se resume a um pedido de sua tia, Vera Giangrande, que era ombudsman do Pão de Açúcar. "Tia Vera me pediu para esculpir a imagem da mãe de santo dela. Eles a colocaram na porta do terreiro", conta.

O busto de Marilisa está na sala de jantar, aguardando a hora de (assim ela espera) ser transportado ao museu. "A encomenda foi do conselho do MuBE. Gostaria que ficasse próximo à entrada do museu, do lado de fora. Mas você sabe a fogueira de vaidades que é o mundo artístico..."

Em análise. Olívio Guedes, vice-presidente e diretor cultural do museu, diz que "tudo está em análise". Marilisa só não sabe ainda a frase que colocará na plaquinha do pedestal. Pede sugestões a amiga Suzanna do Amaral Cruz Sampaio, conselheira do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que reforça na entrevista "a extraordinária capacidade de convencimento da Marilisa: tudo o que quer ela consegue". Suzanna olha para o infinito, pensa na frase e a escreve no ar com o dedo: "Pensou, criou, materializou."

Xixi na piscina. Mais prolífico que Maria Clara, o empresário Renato Limongi, de 46 anos, que se apresenta como marchand, abençoa o dia em que deixou de fazer brindes e partiu para o ramo dos bustos. "Cobrava R$ 0,50 por minibroche, uma miséria. Queria ganhar dinheiro", diz Limongi, que em dois anos de mercado recebeu até encomenda para uma estátua do neto do cliente fazendo xixi na piscina.

Recentemente, ele foi sondado para orçar o busto do cantor Agnaldo Timóteo. A obra seria colocada em uma praça de Caratinga, cidade mineira onde o cantor nasceu. "Agnaldo é um filho que só eleva Caratinga. Redigimos uma carta convocando todos os segmentos da sociedade para levantar recursos", diz a professora Marilene Godinho, que encabeça o movimento pró busto. Diz ela que já chegaram a cobrar R$ 52 mil pela obra. A ideia do busto cresceu e já se cogita encomendar uma estátua.

Orgulhoso com a honraria, Agnaldo, contudo, pondera: "Talvez fosse melhor fazer o busto, porque em um pedestal ficaria protegido de crianças más que urinam no pé da estátua."

O marchand Renato diz que há uma lei que proíbe que se coloque em lugar público a estátua de um político vivo. Agnaldo é vereador, pelo PR-SP. O procurador-geral de Caratinga, Salatiel Ferreira Lúcio, diz que, de acordo com o artigo 30 da Constituição, compete ao município legislar sobre assuntos de interesse local. "O prefeito pode redigir um projeto de lei revogando a determinação", afirma Salatiel.

Para a ex-namorada. Em termos de decretos, não há nada que ainda garanta a eficácia do busto enquanto declaração de amor. O caso mais próximo é o do oficial baiano da PM Renato Damasceno, que encomendou o busto da ex-namorada. "Não temos mais proximidade, mas ainda sou apaixonado", diz Damasceno, que rompeu com a moça no ano passado.

Em janeiro, ele enviou por e-mail a foto dela para o artista. Como não sabia qual seria a reação, aproveitou um dos raros e-mails da moça para tocar no assunto. "Ela disse estar estupefata. E só. Ainda pensei no significado daquilo, para ver se deveria interromper o trabalho, mas achei que era um sinal verde. E mantive a encomenda", conta.

Cada homenageado tem uma reação, mas encarar o busto com naturalidade é uma arte. Paulo Maciel, presidente do Tijuca Tênis Clube, no Rio, diz que, a princípio, estranhava dar de cara com ele mesmo, em bronze, na antessala de seu gabinete. Uma das dicas que ele dá para se acostumar com a própria estátua é passar por ela muitas vezes. Hoje, ele diz que é como cruzar com um vaso de flores.

O surfista carioca Marcelo Barbosa, de 35 anos, ainda acha estranho olhar para seu busto, erigido sobre um pedestal em forma de prancha, presente do irmão. "Fiquei pasmo quando vi", lembra.

Pra baixo e pra cima. A primeira pergunta que Barbosa se fez foi: "Onde colocar a obra?" Na empresa, nem pensar. "Já imaginou? "Taí, galera, pra todo mundo ficar me admirando!"" Em casa, ele diz que já percorreu todos os cômodos com a obra. "Andei com o busto pra baixo e pra cima, por onde você imaginar."

Por sua vez, Albano Barbosa se orgulha da própria criatividade. "Queria dar algo especial para o meu irmão. Como ele tem tudo o que quer, me ocorreu a ideia do busto", lembra. Marcelo desconfiou quando Albano o induziu a tirar fotos de vários ângulos.

No momento, Marcelo está de mudança e encaixotou o busto. Lamentou não poder fazer a foto para esta reportagem. Lamentou mesmo, repetiu.

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