Helvio Romero
Helvio Romero

População de rua dobra desde 2000 e se espalha pela cidade de São Paulo

Dados oficiais indicam que 15.905 pessoas pernoitam na rua ou em albergues da capital – mais do que os habitantes de 61% das cidades; gestão Doria estima salto de até 57% em 2 anos. Especialista liga fato à crise e à ampliação da assistência social

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2017 | 05h00

Perto da hora do almoço, um senhor vasculha uma lixeira na Avenida Paulista e encontra um copo da lanchonete fast food KFC ainda com resto de refrigerante. É a primeira refeição do dia. Em Santo Amaro, na zona sul paulistana, uma mulher recolhe o colchão em que dormia sob um viaduto e sai apressada: está atrasada para a Igreja. Papelões, carroças e barracos forram calçadas de todas as regiões de São Paulo, cada dia mais. Comprovado por números, o aumento de moradores de rua na cidade, em especial fora do centro, está estampado em praças, jardins, esquinas, marquises e pontes.

Dados oficiais indicam que 15.905 pessoas pernoitam na rua ou em albergues da capital – uma população superior à de 61% das cidades no Brasil, de acordo com último censo da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), de 2015. Para chegar até aí, a população de rua cresceu em ritmo acelerado, de 4,1% ao ano, enquanto a taxa da cidade foi de 0,7%. Em 2000, início da série histórica, eram 8.706 moradores de rua.

Hoje, com o agravamento da crise econômica, a situação tende a ser mais alarmante. Tanto que, mesmo sem um levantamento mais recente, a gestão João Doria (PSDB) estima que a população de rua tenha atingido um patamar entre 20 mil e 25 mil pessoas – um salto de até 57% em menos de dois anos, chegando a quase o triplo de 2000.

“A população de rua cresce no mundo inteiro, exceto na Finlândia”, afirma a economista Silvia Schor, que coordena o censo. “É claro que a crise tem impacto, mas não há uma relação tão direta assim”, diz. “Nos Estados Unidos, por exemplo, o boom foi na administração Bill Clinton (1993-2001), época de prosperidade econômica.”

Para ela, um dos motivos do “espalhamento” de moradores de rua é a ampliação da rede de assistência, principalmente de albergues. Outros pesquisadores apontam que a maior circulação de pessoas, de comércios e até a qualidade do lixo também são fatores atrativos.

Espalhamento. Com conflitos familiares, Luiz Ricardo de Aguiar, de 30 anos, resolveu sair da casa onde morava, em Itapevi, na Grande São Paulo. Sem emprego, só encontrou moradia na calçada. Há cinco meses, ergueu um barraco perto da Avenida Sumaré, em Perdizes, bairro nobre da zona oeste. “Os vizinhos ajudam bastante. Aqui, a gente consegue ter estabilidade de vida”, justifica a escolha.

Aguiar chegou a trabalhar em logística e até de pedreiro. Hoje, vive de material reciclável e de doações. Ele sabe que o mercado não está fácil. Ainda mais para quem tem um “x” nas costas. “Fui preso por um assalto”, conta, embora negue participação no crime. “Depois disso, até passo pelas entrevistas, mas sempre falam que deu problema na documentação.

O censo da Fipe mostra que bairros fora do centro têm sido, cada vez mais, a opção. Até 2015, mais da metade das pessoas que não tinham casa para morar vivia nas regiões da Sé, Pari e Brás. Na última pesquisa, foi a primeira vez que esse índice caiu para 49,8% do total.

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Há ‘ricos’ e ‘pobres’ até mesmo entre os sem-teto

Estratificação é visível e envolve os locais em que são encontrados; há alguns indivíduos que caminham com pertences, enquanto outros não têm nada

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2017 | 05h00

O pintor André Bruno, de 38 anos, aperta o start para pausar o Playstation 2 e receber um sanduíche, oferecido por um grupo que faz doação a moradores de rua. Passam das 22 horas e os termômetros marcam 17.ºC. Entretidos com o vídeo game (o Flamengo vai vencendo o Fluminense por 1 a 0 no jogo), Bruno e os amigos fazem parte da minoria que ainda está acordada embaixo do Minhocão. Apesar do frio, estão bem equipados: têm camas, colchões, armário e churrasqueira. Em volta deles, dezenas de pessoas se encolhem em papelões e cobertores.

Com regras de convivência e seleção para morar (os demais precisam aprovar o ingresso), a “Maloca”, como é chamada pelos residentes, parece até um condomínio. Em média, 15 famílias moram lá, há oito anos – um número que varia por causa das constantes entradas e saídas.

“Eu vivo na rua por opção”, afirma Bruno, um dos líderes da Maloca. “É claro que tem o lado ruim: a violência, a sujeira, a preocupação em não incomodar quem mora e trabalha na região. Mas, aqui, eu tenho minha liberdade, converso com as pessoas, consigo trabalhar.”

Frete em carroças é a principal fonte de renda. Não raro, fazem vaquinha para bancar despesas com alimento ou outros itens do espaço – foi assim que compraram o videogame. Já a TV veio de doação.

Perto dali, na Estação Santa Cecília, uma mulher que aparenta ter mais de 50 anos prova um tomate que sobrou da feira de rua. Se perguntarem o seu nome, vai responder que se chama Maria. “Só Maria mesmo.”

“Não gosto de morar na rua: é como se fosse um espírito que te consome e te prende”, diz. Em um carrinho de supermercado, Maria guarda um cesto para revista – que, por enquanto, não guarda exemplar nenhum. “Estou juntando as melhores coisas que tenho, porque quero sair daqui até o fim do ano. Vou procurar uma invasão.”

Estratificação. O pesquisador Eulálio Figueira, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), avalia que também há a divisão de classes entre moradores de rua. “É a mesma estratificação socioeconômica que se vê na sociedade comum”, afirma. “Há os que têm bens e os que não têm.”

“A estratificação também se reflete no espaço geográfico”, diz Figueira. Em sua tese, um mendigo na Avenida Paulista, por exemplo, pode ser considerado mais “rico” do que um da periferia da cidade. “A miserabilidade não é uma condição do morador de rua: ela, na verdade, é parte do conjunto dessa população.”

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Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2017 | 05h00

Nas ruas de São Paulo, o Código Penal vira idioma, com artigos da legislação substituindo palavras comuns. Nessa língua, furto é “um-cinco-cinco”. Roubo, “um-cinco-sete”. E assim por diante. Isso não acontece à toa. Segundo o censo estima, as ruas da capital têm recebido uma proporção maior de pessoas com passagem na polícia. Em 2010, 27% eram egressos do sistema carcerário. Em cinco anos, o índice pulou para 40%. 

Aos 25 anos, Leão Dênis já cumpriu pena por “um-cinco-cinco” e “um-cinco-sete”. Passou quase três anos preso. “Foi tudo para conseguir droga”, diz. “Gosto muito de crack, o problema é que não sei usar.” 

Nascido em Franca, no interior, Dênis veio para São Paulo há quatro anos. “Um cara disse que ia matar meu pai, tá ligado? Aí, eu passei ele primeiro”, conta o morador de rua, que nunca foi preso por homicídio (ou “cento-e-vinte-e-um”). O pai é alcoólatra. A mãe já morreu. 

Hoje, vive com a namorada Paloma Almeida, de 26 anos, em um canteiro em frente à Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais do Estado de São Paulo (Ceagesp), onde fogueiras, barracas e até redes de dormir formam um acampamento.

Sobras de feiras do Ceagesp e a iluminação precária do local, que facilita consumo de droga, ajudam a atrair mais gente. “Em dois meses, o número quadruplicou”, diz Rafael Bernardes, da Associação Viva Leopoldina (AVL). “Tornou-se um problema de saúde pública e de segurança: o tráfico é o vilão.”

Crack. Sob um viaduto de Santo Amaro, na zona sul, Antônio José, de 61 anos, só acorda no fim da tarde. Os dedos enegrecidos denunciam o uso de crack. “Me deram uma pedra para experimentar, eu gostei”, diz ele, que também fuma maconha.

José era pedreiro em Itabuna, na Bahia, e veio para São Paulo há 15 anos. Agora, não exerce nenhuma profissão. “Estou aposentado”, diz. Desde que foi atropelado por um carro, se ocupa em alternar a mão entre o cachimbo e a muleta. “Não gosto de morar na rua: não dá para ter nada, um fogão, uma cama. Se não é a Prefeitura, são os outros moradores que levam. Mas é minha condição, fazer o quê?”

O avanço do crack entre os mais velhos preocupa a especialista Silvia Schor. Segundo o censo, 8% dos idosos usam a droga. “Antes, o consumo era só de álcool. Hoje, a droga se generalizou, está estendida por todas as faixas etárias”, afirma. 

O levantamento aponta que 84% dos moradores de rua usam algum tipo de substância psicoativa, seja droga ilícita ou álcool. Entre os acolhidos em albergue, esse índice é de 54%. “Mas há algo muito perverso nessa história: o risco de identificar todo morador de rua como usuário. Não é verdade.”

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