ALEX SILVA/ESTADÃO
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População da cracolândia sofre com sífilis, tuberculose, hepatite e aids

'Até hoje a gente trata o crack como se ele fosse um problema de polícia. Não, é problema de saúde pública. A sífilis é mais grave que o zika vírus", afirma o professor da Faculdade de Saúde Pública da USP Gonzalo Vecina

Adriana Ferraz e Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

19 Janeiro 2017 | 12h36

O censo da cracolândia ainda confirma o alerta dado por muitos especialistas em saúde pública: a dependência química não é a única doença enfrentada pelos usuários da região. Segundo a pesquisa, uma a cada cinco pessoas da cracolândia já contraiu sífilis, que representa perigo especial para gestantes e bebês. A infecção pode provocar abortos ou algum tipo de má formação no feto, como alterações ósseas, cerebrais e cegueira. Tuberculose, hepatite e aids são outras doenças associadas muito presentes na população da área.

Outro dado aponta que 60,6% dos dependentes já trocaram dinheiro por sexo - e, segundo especialistas, a relação sexual é uma das principais maneiras de transmitir as doenças registradas entre os moradores e frequentadores da cracolândia - e outros 31% já tentaram se matar. 

"Até hoje a gente trata o crack como se ele fosse um problema de polícia. Não, é problema de saúde pública. A sífilis é mais grave que o zika vírus", afirma o professor da Faculdade de Saúde Pública da USP Gonzalo Vecina. "A mulher que a contrai terá filhos com sífilis congênita, doença que compromete todo o desenvolvimento do bebê. Estima-se que em 2017 o Brasil registre cerca de 20 mil novos casos. É muito grave isso, pois estamos falando de uma doença que tem diagnóstico e tratamento baratos."

Para Vecina, os dados revelados não surpreendem. "Os drogaditos, geralmente, têm baixa imunidade e vivem em condições adversas de vida, o que pode levar, sim, a quadros de tuberculose, por exemplo", diz, referindo-se à taxa de 12,4% levantada pelo censo. De acordo com o professor, a pesquisa é importante porque mostra claramente os outros riscos a que são submetidos os dependentes químicos, e sem que o Estado atente para isso.

Moradora de rua há 17 anos, Maria da Silva (nome fictício), de 45, diz que precisou procurar ajuda após ter uma crise de tosse. "Fui falar com o pessoal de uniforme verde (assistentes sociais) para cuidar da saúde. Eu tenho bronquite", diz. Segundo afirma, também toma precauções ao praticar relações sexuais. "Eu não levo essa vida de rua, de fazer sexo com uma pessoa diferente todo dia. Gosto de ter um marido só para mim."

Secretário municipal da Saúde, Wilson Pollara afirma que o futuro programa municipal de combate ao crack vai dividir os dependentes da cracolândia de acordo com suas características físicas e mentais, a fim de personalizar o atendimento médico dedicado a eles. "Vamos ter uma classificação específica, que vai nos ajudar na condução das políticas públicas de saúde. A incidência dessas doenças relacionadas mostra que cada um precisa ser avaliado individualmente."

Segundo Pollara, serão 14 grupos distintos. "A ideia é que o Redenção tenha uma estratégia específica para o usuário eventual, outro para o morador de rua com doença mental, para a criança etc. Não dá para tratar todo mundo da mesma forma", completa.

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