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Nilton Fukuda/Estadão

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Policiais do Deic vão investigar grupos de pichadores

Departamento da Polícia Civil que combate o crime organizado monitora jovens nas redes sociais para fazer prisões coletivas

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Bruno Ribeiro e Juliana Diógenes

23 Janeiro 2017 | 05h00

SÃO PAULO - A Secretaria Estadual da Segurança Pública destacou o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), grupo da Polícia Civil especializado nas investigações contra o crime organizado, para identificar pichadores de rua que atuam na capital paulista. O crime, que é na verdade um delito ambiental, virou alvo de uma “cruzada” capitaneada pelo prefeito João Doria (PSDB).

Há duas semanas, grupos de pichadores vêm sendo identificados pelas redes sociais. Os policiais têm mapeado locais em que eles se reúnem durante as noites na cidade e planejam, em breve, segundo Doria, uma ação para executar prisões coletivas de suspeitos. “A Polícia Civil está fazendo investigações e já identificou onde se reúnem, quem são, já fotografou e, muito em breve, essa ação vai se materializar”, diz .

O ato de pichar prevê detenção de três meses a um ano, além de pagamento de multa. Uma lei de 2012 estabelece pena mais dura, seis meses a um ano, caso a pichação seja contra monumentos ou bens públicos.

Uma das ideias para aumentar a punição aos pichadores é tentar enquadrar grupos da adeptos da prática no crime de formação de organização criminosa, em que a punição pode chegar a até oito anos de prisão. 

Isso aconteceu em Belo Horizonte. Ações coordenadas das polícias e do Ministério Público resultaram no indiciamento de 15 pessoas em 2015 por formação de quadrilha. A Polícia Civil identificou ligação entre grupos de pichação e traficantes de droga. A Justiça autorizou até a instalação de tornozeleira eletrônica em alguns acusados.

O secretário adjunto da Segurança Pública de São Paulo, Sergio Turra Sobrane, confirma o uso do Deic, mas afirma ser difícil conseguir reunir provas suficientes para esse enquadramento. “A infração não é de uma gravidade tão grande, como está na própria lei, que dê para caracterizar como organização criminosa. Pode ser que se consiga chegar nesse ponto, mas é muito difícil”, afirma. Segundo Sobrane, o trabalho do Deic será identificar os locais em que os pichadores se reúnem para depois organizar ações de repressão à prática.

Para o cientista político e professor da USP Leandro Piquet, mapear grupos que se dedicam à atividade é uma estratégia de prevenção importante ao antecipar o comportamento dos pichadores. “A pichação tem um efeito reconhecido em vários estudos internacionais de ser um indicador visual de áreas degradadas”, diz. “Se uma área está pichada, significa que ninguém toma conta. É o indicador para diferentes atividades criminais ou incivilidades. É o lugar que o infrator vai escolher para consumir droga, onde o crime pode ser cometido com a segurança de não ser monitorado.”

Segundo Piquet, porém, o trabalho não pode ser pontual. “Tem de entrar na rotina do patrulhamento ostensivo de PM e GCM (Guarda Civil Metropolitana)”, afirma. “Mas pichação sempre vai existir. Toda cidade do mundo é pichada. É um problema que não para.”

Arte ou transgressão. Para Doria, a diferença entre pichadores e grafiteiros é que os primeiros, que deixam suas marcas em espaços que não são deles e sem autorização dos proprietários, são “transgressores, agressores da cidade, coisa que não apenas a Prefeitura não quer, mas a população”. Os próprios pichadores, por sua vez, se diferenciam dos “grafiteiros e muralistas”, como diz o prefeito, pela renda. 

“Quanto você acha que custa uma lata de tinta? R$ 13. A gente não tem dinheiro para fazer grafite. Quem tem é porque teve patrocínio, apoio, saiu das ruas. Os grafiteiros foram todos pichadores”, disse a bombeira civil de 26 anos que assina “Inópia” em muros do centro, mas não quis se identificar.

Em uma reunião de pichadores na última quinta, um grupo recebeu com desdém a notícia de que eram alvo da Polícia Civil. Para eles, a escolha da pichação como alvo da Prefeitura “serve para ele (Doria) fazer o pessoal esquecer da saúde, da educação”, disse um rapaz de 25 anos que assina “É erva” nos muros. “Pode ser que ele prenda bastante gente, mas a gente vai escrever o nome dele no alto de vários prédios da cidade. Nós temos tinta”, afirma.

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'Pichador não é artista; é agressor', diz Doria

Em entrevista ao 'Estado', prefeito de São Paulo afirma que está preocupado com 'tudo o que é importante para a cidade'

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Bruno Ribeiro

23 Janeiro 2017 | 03h00

A Secretaria Estadual da Segurança Pública destacou o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), grupo da Polícia Civil especializado nas investigações contra o crime organizado, para identificar pichadores de rua que atuam na capital paulista. O crime, que é na verdade um delito ambiental, virou alvo de uma “cruzada” capitaneada pelo prefeito João Doria (PSDB). Em entrevista ao Estado, Doria defende ações da Prefeitura. 

Por que o senhor declarou guerra aos pichadores?

Amo a arte. Sou totalmente a favor da arte urbana, com muralistas e o grafite. Só entendo que precisa ter disciplina. Não pode a cidade inteira estar grafitada. Até porque estabelece uma conexão com aqueles que julgam o que fazem como arte. E não é. Pichador não é artista. É agressor.

Mas por que entrar nisso? 

É como se um museu não pudesse estar dentro de um museu. Tivesse de ser a cidade inteira como museu. O fato de ter um museu implica em ter um ambiente adequado, seguro, para que as pessoas possam admirar a arte. A ideia é criar amplas áreas na cidade, para que eles possam expressar e revigorar sua arte, para que você possa ter um café, comprar uma camiseta, uma reprodução dessa obra, criar sustentabilidade para grafiteiros e muralistas. 

O senhor gosta de algum grafite na cidade? 

Gosto muito do (Eduardo) Kobra. Acho brilhante, competente, justifica o fato de ele ter internacionalizado suas obras. E Osgêmeos, que estão a maior parte do tempo nos Estados Unidos. 

Há alguma pichação que o incomodou mais? 

A ponte estaiada (Ponte Octavio Frias de Oliveira, na zona sul). Aquilo foi um absurdo. Um dos símbolos da cidade. Era uma questão de honra limpá-la. Não há pessoas de bem que possam aprovar essa destruição. Estamos pedindo que denunciem os pichadores.

Não é um tema banal diante de outros problemas? 

Estou preocupado com tudo o que é importante para a cidade. Minha obrigação é cuidar da cidade. Não há nada que mude minha decisão de ser um grande zelador. 

 

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Celso Filho

23 Janeiro 2017 | 05h06

SÃO PAULO - Diante das ações do prefeito João Doria contra pichações e grafites, artistas e especialistas questionam a falta de diálogo com a Prefeitura. Para eles, as manifestações de arte urbana são patrimônio cultural que deve ser preservado na cidade.

“Há fundações internacionais, como a Cartier, de Paris, que recebem e apoiam pichadores brasileiros. Temos de estar de braços abertos para essa molecada, chamá-los para o diálogo”, defende o artista plástico Rui Amaral, um dos precursores do grafite em São Paulo. Amaral vai se reunir com o secretário de Cultura, André Sturm, nos próximos dias para discutir as medidas recentes.

Amaral foi um dos curadores do corredor de arte urbana da Avenida 23 de Maio. Segundo ele, o projeto, conhecido como um dos maiores murais do tipo no mundo, englobou tanto a pichação quanto o grafite – e sua junção, conhecida como “grapixo”. Alguns desses trabalhos foram cobertos de tinta pelo prefeito há pouco mais de uma semana, durante uma ação do programa “Cidade Linda”.

A artista, curadora e pesquisadora de arte urbana Lilian Amaral também cobra uma participação maior da Secretaria de Cultura no diálogo com os artistas de rua. “Estamos falando de produção cultural. Não foi ao acaso que essas manifestações artísticas conquistaram espaço e chegaram ao ponto de estarem ligadas à identidade da cidade”, explica.

Segundo a pesquisadora, o grafite e a pichação são linguagens artísticas que têm uma mesma origem, ligada à ocupação de espaços públicos. “É um tipo de manifestação consolidada no século 21. Temos de entender a arte urbana como patrimônio. É um equívoco apagá-la. É como apagar a memória da cidade.”

Glossário

Muralismo: Na primeira metade do século 20, no México, trabalhando em muros e paredes, artistas pregavam uma arte mais acessível, recuperando temas como o folclore e a cultura maia.

Grafite: São inscrições e desenhos sobre muros e paredes da cidade com caráter transgressor. O repertório de muitos grafiteiros está no universo pop, em ícones da mídia e na linguagem dos quadrinhos.

Picho ou ‘pixo’: É marcado por formas codificadas e tipografias que estão ligadas a determinados grupos urbanos. 

Grapixo: Junta o picho e o grafite. Nas obras, a grafia é similar à do picho, mas o trabalho recebe contornos e cores que o aproxima do grafite.

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