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Polícia vai determinar percurso de passeatas

Secretário estadual de Segurança Pública justifica repressão; itinerário só ficará livre se for avisado com antecedência

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Paulo Saldaña,
O Estado de S. Paulo

13 Janeiro 2016 | 00h16

SÃO PAULO - A estratégia adotada nesta terça-feira, 12, pela Polícia Militar de São Paulo, de impedir que o Movimento Passe Livre (MPL) decidisse o trajeto da passeata na hora, será repetida nas próximas manifestações. Anunciada pelo secretário da Segurança Pública, Alexandre de Moraes, a medida é inédita em atos do grupo, que sempre definiu o trajeto durante os atos. A polícia usou bombas para impedir a passeata, mas Moraes negou que tenha havido abuso.

O titular da Secretária de Segurança Pública da gestão Geraldo Alckmin (PSDB) falou oficialmente às 21 horas, enquanto ainda havia confronto entre manifestantes e policiais na região central. Segundo ele, os manifestantes se negaram a fazer o traçado “colocado” pela Polícia Militar, o que teria forçado os agentes a dispensarem o ato. 

Moraes afirmou que o MPL deve informar com antecedência o percurso. Caso não faça isso, é a polícia que vai decidir qual deve ser o caminho a ser seguido. “A estratégia utilizada hoje pela Secretaria de Segurança Pública vai ser a utilizada em todas as manifestações”, afirmou. O MPL sempre se negou a avisar o trajeto do ato, defendendo que essa é uma decisão que deve ser tomada coletivamente ao longo do ato.

Segundo o secretário, a antecipação dos planos é uma prerrogativa para a liberação de todas as manifestações, não só as do Passe Livre. O objetivo do governo seria organizar as vias para receber a passeata, realizando desvios de linhas de ônibus em parceria com a Prefeitura e a limpeza de ruas. Principalmente, de acordo com secretário, para evitar caçambas com entulhos, onde há pedras que podem até serem usadas como arma por black blocs.

Moraes ponderou, entretanto, que não basta comunicar planos de fechar as principais vias da cidade. “A Constituição não permite ao Estado que negue, mas indica (por exemplo) que, se vai para Rebouças, é uma faixa. Um grupo de pessoas não pode parar a cidade e prejudicar milhões de pessoas”, completou.

Abuso. Na coletiva, Moraes classificou como “abuso” a atitude dos manifestantes de “furar o bloqueio” e iniciar a passeata. Assim que os manifestantes se colocaram à frente do cordão de policiais, as bombas começaram. “Todo o traçado foi colocado e conversado pelas lideranças (do MPL). No primeiro momento, não havia problema, mas em um determinado momento, ao invés de seguir para a Consolação, os manifestantes tentaram romper o bloqueio para ir para a Rebouças, que não estava preparada para a manifestação, tinha o transito tranquilo”, disse o secretário. “Neste momento houve a necessidade da dispersão.”

Um grande efetivo de policiais militares praticamente “envelopou” os manifestantes, impedindo que eles se deslocassem do local de concentração, na Praça do Ciclista, na esquina da Avenida Paulista com a Consolação. Até mesmo trabalhadores da região foram impedidos de passar por ali. O secretário, porém, negou que a polícia tenha impedido o direito de ir e vir. “Eles tinham total direito de ir e vir no trajeto da manifestação. É isso que a Constituição garante”, afirmou.

Pelo menos dois jornalistas ficaram feridos durante a ação da polícia na Avenida Paulista. Moraes defendeu a ação da PM e afirmou que, caso abusos sejam “provados”, eles serão apurados. “Não acho que houve abuso da polícia e se eventualmente algum abuso for mostrado, e comprovado, vamos como sempre apurar. Mas o abuso tem de ser provado.”

Durante a coletiva, jornalistas relataram que a PM jogou bombas na direção dos repórteres. “As bombas foram atiradas na direção aos manifestantes. Se os jornalistas estavam com os manifestantes ou não, vamos apurar. Temos todas as imagens”, completou ele. Moraes ainda comemorou o registro de apenas dois casos de vandalismo: vidraças quebradas de uma agência bancária e do Instituto Cervantes, na Paulista.

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