Polícia mata 52% mais no Estado, no 1º bimestre

Em uma tendência que vem se consolidando desde março do ano passado, os casos de resistência seguida de morte - homicídios em que a vítima morre em supostos tiroteios com a Polícia Militar - voltaram a crescer nos dois primeiros meses deste ano no Estado. Em janeiro e fevereiro, foram 140 ocorrências, 52% acima do verificado no mesmo período do ano passado, quando ocorreram 92 casos.

Bruno Paes Manso, Josmar Jozino e Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

12 Abril 2010 | 00h00

Desse total, 114 pessoas morreram em casos envolvendo policiais militares em serviço, enquanto 26 pessoas morreram em ocorrências com policiais em folga. Nos dois primeiros meses do ano, também cresceu o total de policiais militares mortos. Onze homens morreram no bimestre -sete deles fora do horário do expediente. Durante o mesmo período do ano passado, sete policiais morreram - cinco deles durante a folga.

O crescimento da violência policial já preocupa as entidades de direitos humanos desde o ano passado. Em 2009, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública, foram registrados 549 casos de resistência, total 27% maior do que as 431 ocorrências registradas em 2008.

Os dados da Ouvidoria da Polícia, contudo, são ainda mais alarmantes. Eles somam os casos de resistência seguida de morte e os homicídios dolosos praticados na corporação. Nesse levantamento, considerando somente as ocorrências envolvendo policiais militares, morreram 647 pessoas, 526 delas vítimas de policiais em serviço. Comparado ao ano de 2008, o total foi 75% maior.

Direitos humanos. O crescimento dos casos de resistência seguida de morte são a principal preocupação da Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo, que tem se reunido com entidades de direitos humanos para discutir o tema. Integrantes do grupo acreditam que a indenização e o ressarcimento financeiro dos parentes do morto podem ser uma forma de pressionar o Estado.

O grupo também pretende chamar o governo para discutir um novo padrão de registro dos casos de resistência nos boletins de ocorrência. Atualmente, como regra, na hora de preencher o documento o suposto crime praticado pela vítima (crime contra a administração pública, roubo, entre outros) é priorizado.

O dossiê Mapas do Extermínio: execuções extrajudiciais e mortes pela omissão do Estado de São Paulo, preparado ano passado por entidades de direitos humanos, mostrou que entre o ano 2000 e o terceiro trimestre de 2009haviam sido mortos 5.414 civis em supostos confrontos com as polícias, enquanto 4.345 foram feridos.

A proporção é de 1,24 morto para cada pessoa ferida. Em Nova York, a relação é de dois feridos para cada morto.

Como ao longo de dez anos os homicídios em São Paulo diminuíram mais de 70% e os índices de confronto com policiais mantiveram-se praticamente estáveis, a proporção de mortes cometidas pela corporação em relação ao total de homicídio no Estado passou de 3,68% em 2001 para 11,12% em 2009.

Intervenções. O aumento da letalidade ocorre apesar de o comando da Polícia Militar ter tomado iniciativa para diminuir essas ocorrências, com reforço de treinamento e técnicas não letais de enfrentamento; investigação dos casos de resistência pela Corregedoria; análise psicológica daqueles que se envolvem em tiroteios e investimento em equipamentos não letais, como cassetete, munição de borracha e armas de paralisação por descarga elétrica.

PARA ENTENDER

PMs homicidas também atuam em quadrilhas

Impunidade de policiais violentos fortalece o crime. Em janeiro de 2008, veio à tona o caso dos Matadores do 18º Batalhão, suspeitos de assassinarem o coronel José Hermínio Rodrigues, que comandava a PM na zona norte.

Eles eram acusados de fazer parte de quadrilha ligada a caça-níqueis, tráfico e chacinas. Em 2009 foi a vez dos Highlanders, PMs acusados de estarem ligados a quadrilhas de roubo que cortavam a cabeça das vítimas.

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