Polícia apura ligação entre assassinatos em série e morte de PM em Sorocaba

Catorze pessoas morreram em sete pontos da cidade; clima nos bairros é de medo

Ricardo Brandt, O Estado de S. Paulo

30 Abril 2014 | 21h03

SOROCABA- A Polícia Civil investiga 14 assassinatos em série ocorridos em sete pontos distintos de Sorocaba, desde a noite do domingo. Umas linhas de investigação é possível elo das mortes, algumas delas com características de execução, com o homicídio de um soldado da Polícia Militar, na madrugada do domingo.

"Sabemos que alguns crimes foram praticados da mesma forma, com abordagem parecida, mesmo calibre e perfil das vítimas batendo", afirmou o delegado seccional de Sorocaba, Marcos Carriel.

Nas ruas da cidade, principalmente, nos bairros onde ocorreram os assassinatos, o clima é de medo. Desde a terça-feira, equipes da Ronda Ostensivas Tobias Aguiar (Rota), de São Paulo, estão na cidade para reforçar o policiamento.

Entre a noite de terça-feira e a manhã desta quarta, quando as equipes da Rota já estavam no município, oito pessoas foram assassinadas em quatro pontos diferentes. Na manhã desta quarta, três corpos foram localizados dentro de uma perua carbonizada em uma estrada rural de Sorocaba. Suas identidades não foram identificadas e havia marcas de tiros no veículo.

O crime com maior número de vítimas ocorreu na noite de terça-feira. Em um bar no bairro Paineiras, próximo do local onde o PM foi assassinado no domingo, dois homens encapuzados chegaram andando e dispararam cerca de 30 a 40 tiros em direção às pessoas que estavam no local.

"Eu tinha acabado de chegar em casa, meu pai estava no bar e eu subi para casa, que fica em cima. Ouvi os disparos e quando desci meu pai estava baleado e três amigos nossos tinham sido mortos", conta Gilcimar Souza Silva, de 29 anos.

No local morreram o gesseiro Fábio Lourenço, de 35 anos, que morava na casa ao lado do bar, o pedreiro Agostinho Pereira da Cruz, de 50 anos, e o comerciante Caio Cesar Nery, de 27 anos. Outras duas pessoas ficaram feridas, entre elas o dono do bar e pai de Gilcimar.

"Mataram só pai de família, gente que é do bairro e vinha aqui toda noite", conta assustada em com medo de represálias a mulher do dono do bar Lucy de Souza Silva, de 53 anos. Uma testemunha, que viu dois homens fugindo em um Vectra preto afirmou que antes da chacina, policiais da Rota teriam alertados moradores para que não ficassem nas ruas depois das 22h.

Na mesma noite, meia hora antes, no bairro Itanguá, três pessoas que estavam em uma viela foram baleadas, uma delas, o menor Marlon Proença, de 16 anos, morreu. Dois homens com a cabeça coberta chegaram à pé e atiraram.

Algumas horas antes, no bairro Vila Hortência), dois homens em uma moto passaram atirando contra o aposentado Sidnei Oliveira, de 48 anos, que morreu, e contra o vigia Valdecir Cassiano, de 65, que foi baleado mas sobreviveu.

Investigação. A Corregedoria da PM acompanha o caso, mas nenhuma investigação foi aberta oficialmente porque não há indícios que levantem suspeitas sobre o envolvimento de policiais com os assassinatos, segundo o porta voz da corporação em Sorocaba, o capital Vanclei Franci.

Os assassinatos começaram cerca de 20 horas depois da morte do soldado Sandro Luiz Gomes, de 35 anos, morto durante um patrulhamento, na madrugada do domingo, 27. O soldado patrulhava o bairro Paineiras com o sargento Antônio Correa Júnior, quando os ocupantes de um carro fizeram 16 disparos contra a viatura. Gomes morreu com um tiro na cabeça. O sargento foi atingido no pescoço, mas o tiro pegou de raspão.

Naquela noite, por volta das 23h, no Jardim Casa Branca, mesma região do assassinato, Renato Gomes, de 26 anos, e Samuel Soares, de 26 anos, foram mortos em um campo de futebol, por dois homens. Uma terceira vítima sobreviveu.

Na manhã de segunda, 28, uma vítima ainda não identificada foi assassinada no Jardim Radio Club. Na noite do mesmo dia, três rapazes foram assassinados dentro de uma casa com tiros na cabeça, na Vila Nova Sorocaba, mesma área da morte do PM.

Clayton Ravira, de 33 anos, morto com 7 tiros, a maioria na cabeça, tinha passagens por estelionato, furto, tráfico e já havia cumprido pena e foi solto em 2013. Jonas Gomes, de 21 anos, levou 11 tiros. Vinicios Monte, de 17 anos, morreu com 3 tiros. Foram encontrados projeteis de pistola 9 mm e calibre 380.

"A princípio não há nenhuma relação entre os assassinatos e a morte do policial. As evidências e os depoimentos indicam que pode haver uma relação entre briga de traficantes", afirmou o porta-voz da PM. "Mas se houver qualquer indício de envolvimento de PM a corporação será transparente e tomará as medidas."

O suspeito do assassinato foi preso na manhã de terça-feira em uma operação das polícias civil e militar em Itapeva, distante 180 quilômetros de Sorocaba. A reportagem apurou que a polícia acredita que o assassinato do PM tenha sido encomendado pelo PCC, como pagamento pela perda de um fuzil.

Campinas. A Secretaria de Segurança Pública do Estado enviou uma equipe do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) para ajudar nas investigações. A equipe, comandada pela delegada Elizabeth Sato, é a mesma que no início do ano participou das investigações dos 12 assassinato em série ocorridos em Campinas, após a morte de um PM. No caso de Campinas, seis policiais foram presos preventivamente por suposto envolvimento com as mortes. Outros policiais continuam sendo investigados no caso.

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