Poetas cantam Santo Amaro, bairro da zona sul de SP

O cotidiano do bairro, com sua "sinfonia popular", é retratado por 13 poetas no livro ' Santo Largo Treze'

Edison Veiga, de O Estado de S. Paulo,

18 Abril 2009 | 20h12

Sete meses, um bairro, 13 poetas, R$ 13,2 mil e um projeto. Se fosse uma equação matemática, bastariam esses números para que brotasse o livro Santo Largo Treze (Editora Annablume, 72 páginas, R$ 15). Como é poesia, há muito mais rimas e acasos. Nem todos os "poetas de Santo Amaro" nasceram ou viveram no bairro, mas foi ali que eles se encontraram e compuseram seus versos. Por meio de palavras, retrataram o cotidiano do bairro, com sua "sinfonia popular" (leva capa do celular/ leva DVD barato/ quatro meu é um), seu metrô que liga o "nada ao sonho", sua praça cercada por grades "que nem tigre no xadrez", suas prostitutas, seus mendigos...

 

Grupo de poetas autores do livro Santo Largo Treze. Foto: Jonne Roriz/AE 

 

 

No início do ano passado, o poeta e estudante de Letras da Universidade de São Paulo Ivan Antunes, de 25 anos, começou a arrebanhar amigos literatos para animar o bairro da zona sul paulistana. "Queria fazer algo plural, com viés cultural, que lançasse um olhar para Santo Amaro", recorda. Com a ajuda de dois colaboradores - a turismóloga Ana Caroline Araújo, de 22 anos, e o estudante André Luís, de 24 -, inscreveu um projeto no programa Valorização de Iniciativas Culturais (Vai), da Secretaria Municipal de Cultura. Conseguiram o financiamento de R$ 13,2 mil para promover uma série de oficinas literárias e apresentações de poesia em Santo Amaro. Essa efervescência cultural resultou na publicação do fanzine Trezine Santo Amaro, do blog Treze Visões (www.trezevisoes.blogspot.com) e, por fim, do livro Santo Largo Treze.

 

Ivan, que nasceu e sempre morou nos arredores de Santo Amaro, se lembrou de sua experiência como vendedor de planos de saúde - entre 2004 e 2005 - para escrever seu poema. "Na época, conviver com os camelôs do Largo 13 de Maio foi minha descoberta do mundo", afirma. Em versos: "posso falar um minuto?/ posso te ajudar um minuto?/ posso te assaltar um minuto?/ posso te surrar um minuto?/ posso te matar um minuto?"

 

Além dele, o projeto teve a participação de outros 12 poetas, um ilustrador, uma fotógrafa e uma artista hippie. "Ela (a artista Roseli Kraemer), por atuar no Largo 13, nos ajudou no contato com o pessoal dali", explica a fotógrafa Sissy Eiko, de 26 anos, que fez 874 imagens do bairro - sete delas acabaram publicadas no livro. "Para mim foi uma experiência maluca porque nunca tinha ido à periferia", revela o ilustrador Jozz, de 25 anos, que há seis anos veio de Jaú (SP) para morar no centro de São Paulo. "Enchi um caderno com ilustrações das andanças que fizemos em Santo Amaro."

 

Para nortear o trabalho dos poetas, o grupo determinou que cada um escreveria sobre um tema predefinido. Treze temas. Na lista: as prostitutas do Largo 13, os eventos da Praça Floriano Peixoto, as grades da mesma praça, a Linha Lilás do Metrô, os vendedores ambulantes, o poeta santamarense Paulo Eiró (1836-1871), um passeio noturno pelo bairro, a história da região, a diversidade cultural, a miscigenação, o meio ambiente, a marca dos escravos e uma ode aos artistas.

 

Imbuídos da missão, os poetas, em geral assíduos frequentadores de saraus paulistanos, não economizaram inspiração para a empreitada. "Um dos grandes problemas que a gente tem na zona sul é chegar ao centro da cidade e o sonho do santamarense sempre foi ter um metrô", se justifica Ad Rocha, de 49 anos. "Só que quando chegou, ligava o Largo 13 ao Capão Redondo." A Erika Pires, de 21 anos, coube homenagear Paulo Eiró. "Ele é de uma importância que as pessoas escondem", diz.

 

Também jovem, João Rosalvo, de 23 anos, enfrentou o papel de poeta-boêmio e desvendou a noite santamarense. "Na adolescência, eu morava perto da Represa de Guarapiranga e tinha muito contato com Santo Amaro. Os ônibus que pegava sempre passavam pela região do Largo 13", lembra. "Via as brigas de bar, os menores que moram na rua, as ‘trabalhadoras da noite’... E a estátua de Borba Gato, aquele grande bonecão com cara de santo e uma arma na mão."

 

Para o pernambucano Carlos Galdino, de 30 anos, que vive na capital paulista desde 1994, o Largo Treze é um verdadeiro Nordeste paulistano. "Tem muito da cultura do ‘norte’ ali, até naquele comércio. Por que não criar um polo cultural na zona sul?", defende. O baiano Rui Mascarenhas, de 46 anos, optou por tratar de um tema histórico. "Santo Amaro foi rota de passagem de negros fugidos para o Quilombo de Cafundó, no interior", conta. "Quando eu passo por aqueles caminhos, reencarnado naquelas visões, o que eu vejo? As casas, as pequenas construções, o sofrimento, as ruas estreitas..."

 

Já a escolha de Domenico Almeida se mistura com sua chegada a Santo Amaro. Ele se mudou para lá, vindo de Sorocaba (SP), há 13 anos. Na mesma época em que a Praça Floriano Peixoto era cercada por grades. "Meu poema é uma discussão profunda da questão do espaço público e do espaço privado. Há um processo de isolamento", argumenta. "A praça gradeada foi uma solução ruim, mas os camelôs, as drogas e os pontos de prostituição a estavam invadindo." Em sua opinião, a melhor solução seria ocupar a praça com arte. " Tem um coreto, tem o artesanato local...", enumera. E a poesia, contemporânea, urbana, periférica, criada diuturnamente pelos 13 poetas de Santo Amaro.

 

Leia, abaixo, alguns dos poemas nascidos do projeto:

Angola Janga

(Rui Mascarenhas)

..."aquele não foi o pior sofrimento quando íamo mato a dentro

fugindo a dente de cão"

Pior o rosto vincado nos anos de solidão e assombros!

Pior o olhar catatônico que não distingue onde estamos!

Pior viver a honra de tão maculada mágoa sob intermináveis escombros!

Pior o degredo da alma no limbo que não diz quem realmente somos!

..."Angola Janga surge a qualquer momento!

(...a qualquer momento)"

..."com as forças de Olorum! de Olorum!"

Nosso Alimento!

"muitos moços moças - poucos velhos dando o exemplo

aos que nunca chegaram tão longe - a sol poente

aos que nunca aqueles matos investigaram"

Nego bom não se rende! Não se vende!

"mato que cortava feito navalha,

e pio de pássaro nunca ouvido - seguido

por olho de índio menos temido que ferros na senzala"

...e quando a noite caía, ninguém entendia a tormenta que se passava

E naquela noite,

Eu quis a morte de imediato!

Mas a morte não me quis!

Em Pânico devora-me as entranhas!

Em Pânico ressuscito!

Aí De Nós Quando A Noite Nos Deixar Se Pudermos Abrir Os Olhos À Realidade... Fitaríamos Com Horror A Vida O Espírito Haveríamos De Despertar E Que Certamente A Mercê De Tantas Atrocidades Deixaria O Corpo Transfigurado Ao Extremo A Ponto De Partir Pois O Espírito Não Nos Quer Atados Ao Mundo Quer Abandonar-Nos A Qualquer Momento

"...e fomos encontrando terra boa,

Boa como os deuses haviam dito!

Bendito Exu! Que nos trouxe a essas alturas!

Bendito Oxossi! Por debandar esses malditos!

Bendito São Benedito!

Aos que existem na extensão de minha textura!"

II

Vejo que muitos anos se passaram

Do Cafundó a Santo Amaro,

Onde a morte não me quis naquela noite...

Nem a lenta agonia do açoite!

...e encontro nossas antigas casas de dandaka embrutecidas!

Lado a lado sobremesmos ombros lacerados,

Meu Desorganizado Quilombo!

Vejo o intenso colorido que derrama quando essas delicadas habitações de miúdos abrem suas portas...

O sangue a escorrer-lhes as veias de vias em avenidas expostas

Que de súbito amanhece exalando os odores agreste dos Silvas

das frias calçadas sob as costas...

...E Salve! Salve! Os Santos Silvas! Os Joseniltons também!

Que dia a dia revivem a mesma enxotada refinada de horrores

Às vistas cegas da Igreja Matriz da Eterna Glória dos Honoráveis Senhores!

...vejo quão tristes teus filhos estão!

...um amargo frescor lhes saem das janelas do riso como se entoassem cânticos de alegria no exílio.

Sigo por entre ruas estreitas e tortas

O sândalo perfuma o machado que o corta.

 

 

O Limpo

(Erika Pires)

Se Paulo Amaro,

São Paulo Eiró:

Do arrabalde um canto

em pés marcados

pelo amargo pó.

Sangue limpo, ou quase -

São sangues derramados

pelas beiras

do santo.

São Paulos agrilhoados

- eiras da quase cidade.

São sonhos de humanidade

em liames angustiados.

São versos

silenciados.

São eco - refúgio das Arcadas

- mansitude e liberdade

Arroubos e perfeições

de infortúnio

- plenitude em fuga às instruções:

Na morosa vila Ibirapuera

O quase padre-jurista, poeta

Fez animar revoltas a sua era

E

Em cantos d’um santo malfadado,

encontrado o pranto contra-atado,

à recolha do manto-encanto famigerado

da doutrina

de ser-vir e ser pecado

por amar em fugas, agridoce sorte

e

atuar em corte

cada verso e fado,

toda morte

-

Fuligem hoje, treze

- O largo pranto

de um poeta só

 

Metrô: do sonho ao nada

(Ad Rocha)

Por aqui

passaram as mulas dos bandeirantes

abrindo picadas

as parelhas com as tralhas dos imigrantes

Por aqui

passaram as procissões

com a imagem em andor de Santo Amaro

os magarefes, saltimbancos e vates

os camelôs com suas quinquilharias

Ao lado da Matriz do Largo 13

jaz uma placa

indicando a última viagem dos bondes

onde hoje, ali mesmo

inicia a nova rota do metrô

ligando o sonho ao nada

 

 

 

 

Largo Treze de Maio

(Ivan Antunes)

leva capa do celular

leva dvd barato

quatro meu é um

gelada coca gelada

gelada brahma gelada

amendoim do he-man

come o meu aqui faz neném

vem o carro do pão doce

tem pão de creme de côco

tem pão de creme de milho

atestado de saúde

faço dez o atestado

faço exame de vista, dentista

olha ótica ótica ótica tia

eu compro: ouro

dólar euro ouro

bom dia senhor!

posso falar um minuto?

posso te ajudar um minuto?

posso te assaltar um minuto?

posso te surrar um minuto?

posso te matar um minuto?

cheguei hoje afim de venda

só não quero é caroço

hoje faço promoção

vendo aqui a banca inteira

olha o cafezim com leite

(amendoim do japonês)

é caldo de cana do bacana

tapioca toda doce

o carro do pão doce vai passar

é o queijo das minas do mineiro

tem saúde tem plano de saúde

ultrassom

faz na hora senhora?

chega cá gato,

namora, amá, rola?

brincá

de fazê fiô?

é dez: garanto a diversão.

amai-vos sempre uns aos outros

contribua sempre teu reino

foge dos pecados da carne

a lê l uia l uia

"- VEM RÁPA"

vai pau

polícia

sem papo

fim da sinfonia

popular

 

 

 

Ao Santo armado

(João Rosalvo)

ajoelhado

devotado em oração

surge no banquinho inexistente da praça

um homem

na noite

que diante de sua devoção paulista

(a estátua do Borba Gato)

começa:

"Oh, meu Santo Armado,

de guerra construído e preparado,

que guardas a cidade amarga de barro,

bairro da grande metrópole, São Paulo,

meu tempo anti-lunar vem te pedir,

salve nossas noites de esperança

salve nossas boites, nossas danças,

nas ruas terminais de Santo Amaro

nas praças floreais de poucos atos,

nas casas da antiga: antigos fatos.

Fazei de nossa flor Matriz,

da alameda eira e da Eiró Meretriz,

a chave para acharmos o paraíso,

asfalto e carro e condutor divinos.

Com goles de cerveja, salvai as nossas almas padecidas

e as pobres caras, um tanto parecidas

dos jovens moços que roem o osso sujo e bebem do esgoto pútrido da cidade esquecida.

Aos maltrapilhos que cantam vícios

em coro triste no coreto limpo da Floriano,

dá menos planos e mais oportunidade

de fumarem um cigarro novo por noite

ou de cobrirem seus corpos poucos com lençóis de verdade.

Salve nossas Ladys e nossos End Nights.

E salve esta alma de homem pobre

que toda noite se cobre com manto de jornal

e diante da lua: silêncio sepulcral;

clama pelo povo sofrido

da noite querida

da Santo Amaro perdida

entre os becos e os beijos de suas meninas."

 

 

Prisão: a Praça é do Povo

(Domenico Almeida)

Prenderam a praça, Floriano!

Que prosa essa, que surpresa, o que foi que desgraçou?

Doze anos represada, que nem tigre no xadrez

coreto, banco, árvores, passeio, tudo grade e cadiado!

Mas que agressão!

Quem é que apropriou com olho-grande o que era alegre?

Tremenda encrenca!

Bola-presa, contrabando, prostituta, ladroagem, desemprego,

bate-prego, amarração, estupramento, sangradouro,

vale-brinde, represália...

sem falar na cobra-grande, pedregosa profissão

expresso preço da praga, play-ground da droga

Vixe-Maria! Coisa braba!

E outro arranjo? Em vez de prender, não podia proteger?

Difícil, mais trabalho, mais depressa aprisionar, encarcerar

Mas o segredo, apropriado, é regredir a repressão

O compromisso, a promessa, é impregnar a praça

De arte, aprendizado, educação.

E se o pau rolar, a polícia, beleguim

Pra engradar no xilindró - não a praça inofensiva -

os que degradam a paz do povo

malogrando a alegria, a graça livre

sagrada a qualquer pessoa.

Não à prisão! Captura-cadeia, clausura da praça

Sim ao conviver! Prosa branda, surpresa, apreço humano, predileto.

Desprendam a grade da praça!

Empreguem arte no espaço!

Tirem a grade da praça!

Criem arte no espaço...!

 

 

 

 

O TREZE DO LARGO

(Carlos Galdino)

O TREZE DO LARGO

DO LARGO QUE É TREZE

TREZE !

AZAR OU SORTE ?

VIDA OU MORTE ?

TREZE !

APENAS UM NUMERO ?

VINTE MENOS SETE

CINCO MAIS OITO

SUPERTIÇAO

ILUSAO

O QUE HÁ ?

A QUEM COMPETE EXPLICAR ?

TANTA GENTE...

GENTE !

EM UM SÓ LUGAR

TANTA COISA PRA VENDER

E COMPRAR

NOVO NORDESTE DE CASAS DO NORTE

NORDESTINOS EM BUSCA DE TRABALHO

SONHOS E SORTE

PLANTAS,RAÍZES DE MANDACARU

(ATÉ PENSEI ESTÁ EM CARUARU)

SORTE DE QUEM ?

AZAR DE QUEM ?

AQUELE É TREZE !

A PLACA INDICA:

AQUI É TREZE

E LARGO

É FACIL DE SE PERDER

OU SE ENCONTRAR.

VIA LARGO TREZE

TERMINAL BANDEIRA VIA LARGO TREZE

TERMINAL VARGINHA VIA LARGO TREZE

JD ANGELA

CAPELINHA

E OUTRAS LINHAS

DOS SONHOS

TRABALHOS

FILHOS

FEIRAS

FESTAS

BILHTE UNICO AFINAL !

VIA LARGO TREZE

DE TERMINAL A TERMINAL.

SANTO AMARO

AMARO !

OLHA O LARGO !

AMARO !

O LARGO AMARO!

O LARGO

AMAROS AMARGOS, ANDAO PELAS RUAS

E SÃO TANTOS

BRANCOS

PRETOS

MARIAS

JOAQUINS

SEVERINOS

E OUTROS TANTOS

DE TODOS OS CANTOS

CABROBOS

CABACEIRAS

JEQUIÉ

FREI MIGUELINHO

SURUBIM

VIA LARGO

TODOS OS DIAS A CIDADE É ATRAVESSADA.

Mais conteúdo sobre:
poetas santo amaro são paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.