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PMs são condenados a 96 anos de prisão por massacre no Carandiru

Luciano Bottini Filho - O Estado de S. Paulo

19 Março 2014 | 19h 30

Nesta quarta etapa, foram julgados os crimes que ocorreram no quarto andar do Pavilhão 9

Atualizada às 22h25

SÃO PAULO - Dez PMs do Grupo de Ação Tática Especial (Gate), entre eles o coronel reformado Wanderley Mascarenhas de Souza, um dos fundadores do batalhão de elite, foram condenados nesta quarta-feira, 19, pelos homicídios de oito presos no quarto andar do Pavilhão 9 do Carandiru, em outubro de 1992. Nove réus foram sentenciados a 96 anos de reclusão, mas um único réu, Silvio Nascimento, teve pena maior de 104 anos por maus antecedentes por causa de uma condenação. A defesa recorrerá da decisão e pedirá anulação do júri.

Os policiais ouviram a sentença lida pelo juiz Rodrigo Tellini sentados na primeira fila da plateia e não esboçaram reação. Suas famílias foram orientadas a não comparecer. O advogado Celso Vendramini deu a notícia pessoalmente e contou que eles choraram e se abraçaram. Todos saíram pelos fundos para evitar a imprensa. Souza, que comandou a tropa no dia das 111 mortes na casa de detenção, ficou mais abalado, pois se sentia responsável pelos subordinados.

O coronel reformado também foi fundador do Esquadrão Antibombas da PM e é visto como uma das maiores autoridades em segurança pública do Estado, com livros publicados e doutorado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública. Mas, para a Promotoria, o réu entra no perfil de policiais "matadores" da década de 1980 e traz no currículo acusação de 34 assassinatos em serviço - todos absolvidos, segundo a defesa.

De acordo com o Ministério Público Estadual (MPE), Souza é responsável, por exemplo, por 5 das 15 mortes em uma rebelião em São Paulo em 1982 e por outras 6 mortes de pessoas com doenças mentais em um motim em Franco da Rocha. Dos réus julgados ontem, apenas um não tinha histórico de homicídios.

Julgamento. Os jurados ficaram reunidos na sala secreta por mais de três horas até o juiz Rodrigo Tellini ler a sentença. Eles também absolveram os acusados por duas mortes e pelos crimes de tentativa de homicídio contra três presos. Tellini determinou ainda a perda de cargo público dos acusados, quando terminarem os recursos.

O próximo e último julgamento do caso Carandiru está marcado para o dia 31 de março, em que 15 outros PMs respondem por 15 mortes no terceiro andar. A Promotoria se considera confiante para essa etapa. "Nos avaliamos de forma absolutamente positiva. O resultado é satisfatório em que pese a questão das tentativas (absolvição dos réus por três tentativas de homicídio)", disse o promotor Eduardo Olavo Canto.

O MPE concluiu que a ausência desses três sobreviventes prejudicou a condenação. Apenas um deles foi localizado, mas não compareceu ao júri. Vendramini, por sua vez, alega que houve cerceamento de defesa e acusa o juiz Tellini de ter sido parcial no processo. "Fui prejudicado na minha defesa. Está tudo consignado em ata. O tribunal vai ficar sabendo de tudo o que aconteceu."

Na primeira etapa do julgamento, em abril do ano passado, 23 policiais foram condenados a 156 anos de prisão pela morte de 13 detentos. Em agosto, na segunda etapa, 25 PMs foram condenados a 624 anos de reclusão pela morte de 52 presos. O terceiro julgamento, em fevereiro, foi adiado para o dia 31 de março depois que o advogado dos réus abandonou o plenário. Ele foi multado pelo juiz em R$ 50 mil por causa disso, mas vai recorrer da sanção.