PMs deveriam ter parado viatura longe e mandado suspeito descer

Abordagem defensiva foi ignorada por policiais em SP e Santos; coronel nega aumento de resistências seguidas de morte

BRUNO PAES MANSO, O Estado de S.Paulo

20 Julho 2012 | 03h09

Os policiais militares que realizaram a abordagem na noite de quarta-feira, provocando duas mortes, uma em São Paulo e outra em Santos, deveriam ter tido uma atitude defensiva. O correto em situações de alta tensão e risco é que o policial pare a viatura a uma distância segura. Ao sair do carro, ele deve buscar proteção atrás da viatura ou ficar com um pé dentro do carro e outro fora, escondendo-se atrás da porta. A prisão não deve ser feita a qualquer custo. Mas importante é que o policial garanta sua segurança, para conseguir agir racionalmente.

Quem explica a forma correta de atuar é a capitão da Polícia Militar Tânia Pinc, que neste ano passou para a reserva. Nos últimos quatro anos, Tânia fez doutorado para estudar os Procedimentos Operacionais Padrão da Polícia Militar que devem ser seguidos por aqueles que trabalham nas ruas. "O principal desafio é conseguir convencer o policial, na hora de estresse, a seguir as regras. O que temos observado é que, quanto mais o policial está exposto ao risco, maiores as chances de ele cometer um homicídio", disse.

Nos últimos dez anos, para diminuir o erro dos mais de 100 mil homens que trabalham em São Paulo, a Polícia Militar passou a criar Procedimentos Operacionais Padrão, conhecidos como Pops, que servem para orientar o policial no cotidiano perigoso da rua.

Nos últimos dez anos, foram criados mais de 50 Pops, que servem para explicar a forma mais segura de fazer abordagens, como revistar suspeitos e como negociar com sequestradores. Além dos Pops, a PM criou o Método Giraldi de tiro defensivo. Nesse treinamento, os homens são expostos a situações de risco para se acostumar com a tensão do dia a dia policial.

Apesar dos investimentos, Tânia admite que é difícil fazer com os que policiais sigam as regras em momentos de estresse. Na avaliação da policial militar, o maior problema é a pressão para que seja feito um número elevado de prisões.

"É melhor ter uma atitude defensiva e correr o risco do sujeito fugir do que buscar a prisão a qualquer custo, se descuidar e acabar matando a pessoa que está sofrendo a abordagem."

Para Tânia, uma das soluções seria encontrar formas alternativas de se medir a eficiência policial, além dos índices de prisão.

Resistências. Segundo o subcomandante-geral da PM, coronel Hudson Camilli, os casos de resistências seguidas de morte em São Paulo não estão aumentando. "Do ponto de vista estatístico, não parece que exista algo que fuja à normalidade", disse.

O coronel afirmou que nos 19 primeiros dias deste mês, 47 pessoas foram mortas pela polícia no Estado em supostas resistências. Isso representa 2,5 mortes por dia. Segundo ele, houve morte em 36% dos confrontos. A média dos últimos meses é de 37% de mortes em confrontos.

Camilli disse ainda que o caso que vitimou o publicitário em São Paulo não deve ser comparado com a ocorrência ocorrida de madrugada em Santos, em que uma pessoa morreu com 25 tiros ao tentar fugir de blitz policial.

"Em Santos havia arma no carro e havia pessoas com passagem na polícia", afirmou. "Santos e Pinheiros foram dois casos distintos."

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