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PM e manifestantes entram em confronto próximo ao Itaquerão

Caio do Valle, Diego Zanchetta e Paulo Saldaña - O Estado de S. Paulo

12 Junho 2014 | 11h 00

Jornalista da CNN foi ferida por bala de borracha e foi levada a hospital da zona leste

Atualizado às 16h58

SÃO PAULO - Pelo menos onze pessoas ficaram feridas após confrontos entre manifestantes e policiais em São Paulo horas antes da abertura da Copa do Mundo. Entre eles, a produtora da CNN Barbara Arvanitidis foi ferida por uma bala de borracha e levada para o Hospital do Tatuapé. "É sempre assim aqui?", perguntou o jornalista espanhol da Reuters Nacho Doce. Mesmo com mais de três décadas de experiência em coberturas internacionais, Doce ficou surpreso e assustado com o que presenciou. "A PM começou muito rápido o tumulto."

A primeira bomba da Copa da Mundo explodiu às 10h14, quando 30 manifestantes do Diretório de Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) gritavam em solidariedade aos metroviários, chamando o governador Geraldo Alckmin (PSDB) de fascista. Sobrou também para a presidente Dilma Rousseff (PT). "Fora, Alckmin, leva a Dilma com você."

A Tropa de Choque ocupava todas as ruas das imediações da Estação Carrão desde as 8h30. Alguns policiais diziam que "não ia ter manifestação". Eles estenderam o seu dispositivo pelas ruas do bairro e ficaram a postos à espera dos manifestantes.

Havia 150 policiais com escudos, cassetetes, espingardas, bombas, 20 carros e um helicóptero, apoiando a tropa no chão. Eles contavam ainda com seis bloqueios em ruas contíguas. Em todas as entradas e saídas do Metrô e dentro da estação, outros PMs do Comando de Policiamento da Copa (CPCopa) faziam revistas em jovens, abriam mochilas dos que desembarcavam na estação. A presença ostensiva da polícia surpreendeu os estudantes que chegaram ao lugar por volta das 9h50.

Manifestações na Copa
Werther Santana/Estadão

Por volta das 9h45 desta quinta-feira, 12, cerca de 40 estudantes da Unicamp chegaram à Estação Carrão para protestar contra a Copa do Mundo e em solidariedade aos metroviários.

Um grupo desembarcou de um ônibus de Campinas com uma banda e megafone. O bater dos bumbos dos estudantes não durou quinze minutos. Foi interrompido pelas bombas de gás e de efeito moral disparadas pela Tropa de Choque quando se aproximou do cordão de isolamento feito pelos policiais para impedir a chegada dos manifestante à Radial Leste.

Os manifestantes correram em direção à Rua Platina, uma paralela da Radial. Lá, foram novamente recebidos a bala de borracha por outro grupo da Tropa de Choque. Um manifestante tirou a camiseta e ficou diante dos policiais com uma latinha na mão, desafiando os policiais. Acabou preso. "Coxinha! Coxinha! Coxinha! Fascista! Fascista", gritavam os manifestantes.

Outros cinco ônibus chegaram com manifestantes para "O Grande Ato 12 de Junho: não vai ter Copa!". Eram black blocks, punks, sindicalistas ligados à CSP-Conlutas e estudantes secundaristas. Por volta das 11h, um grupo resolveu marchar até a Rua Serra do Japi, onde fica a sede do Sindicato dos Metroviários. A PM acompanha.

Em nota, a PM afirmou que agiu para "impedir que baderneiros fechassem a Radial Leste", o que afetaria o direito de ir e vir de milhares de pessoas, inclusive das que vão assistir à abertura da Copa.

Radial. Por volta das 13h40, os manifestantes fecharam a Radial Leste, sentido centro, na altura do Viaduto Pires do Rio. A Polícia Militar os acompanhou e atirou bombas de gás lacrimogêneo na direção não só dos ativistas, mas também dos carros que circulavam na Radial. Vários veículos tiveram os vidros quebrados por manifestantes. O Shopping Metrô Tatuapé fechou as portas, e um carro do SBT foi depredado próximo ao centro de compras. 

O advogado Guilherme Duarte, de 27 anos, foi duramente abordado e jogado no chão pela PM enquanto questionava o interrogatório de um ciclista. A reportagem do Estado presenciou a ação, e os PMs não se identificaram, embora questionados. Além disso, homens da Tropa de Choque impediram jornalistas de ficar na esquina da Rua Serra de Japi com a Radial Leste. A imprensa internacional mostrou crachás de identificação e não entendeu o impedimento. A ação é coordenada pelo capitão Storai.

O confronto se estendeu até a altura da Estação Belém, onde manifestantes invadiram uma loja de conveniência de um posto na esquina da Radial com a Avenida Álvaro Ramos. Pamela Macedo, de 20 anos, trabalha no posto e ficou em pânico.  "Estava arrumando a loja, escutei um barulho e vi todo mundo correndo. Entraram aqui e derrubaram as coisas", disse ela. Pamela está grávida de cinco meses e declarou que não sabia da manifestação. "Entrei no banheiro e fiquei lavando o rosto."

Por volta das 15h, as Estações Tatuapé do Metrô e da CPTM estavam fechadas. As entradas foram bloqueadas por policiais militares armados. Um grupo do Movimento Não Vai Ter Copa protestou no mezanino das estações. 

Manifestantes arremessaram por volta das 14h47 um extintor de incêndio contra um cordão de isolamento na via do trem, no sentido Corinthians-Itaquera. Às 15h25, houve nova incursão da Tropa de Choque na passarela do Metrô Tatuapé sobre a Radial Leste. As pessoas entraram em pânico. A PM deu golpes de cassetetes nas pessoas e as impediram de entrar em qualquer espaço da estação. 

Às 16h50, 29 pessoas foram detidas pela Polícia Militar dentro da Universidade Estadual Paulista (Unesp), na Barra Funda, próximo à Federação Paulista de Futebol. Elas estavam com máscaras, vinagre e canivetes.