Jose Patricio/AE
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Pioneiro na Bahia afirma que internação à força é um erro

Para psiquiatra, é preciso que o Estado faça sua parte na retaguarda do trabalho de aproximação

Eliana Lima - Especial para o Estado,

10 Dezembro 2011 | 19h15

SALVADOR - O psiquiatra e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Antonio Nery, criador do projeto Consultórios de Rua - referência para o plano nacional de combate ao crack -, afirma que não acredita em tratamentos impostos, que visam à total abstinência do usuário. "Isso é quase impossível, pelo tipo de vida que eles levam. Para eles, a vida ficaria insuportável."

 

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O programa Consultórios de Rua prevê o atendimento de crianças e jovens de rua, viciados em drogas. O trabalho é realizado no próprio local onde são encontradas essas pessoas e de forma espontânea. "Não queremos salvá-los, impor regras ou práticas, tudo é voluntário. Eles são excluídos e de rua, não são estúpidos. Às vezes a droga é o menos importante na vida dessas pessoas, por isso estabelecemos um diálogo com elas."

Para Nery, é preciso que o Estado faça sua parte na retaguarda do trabalho de aproximação e busque criar medidas que resgatem a cidadania das pessoas que estão abaixo da linha da miséria absoluta.

O psiquiatra acredita que a forma como o tratamento é oferecido faz toda a diferença na aceitação. "Os outros dizem o que eles têm de fazer. Nós achamos que isso é uma consequência, uma possibilidade diante da confiança que vamos estabelecer com eles. E o resultado vai depender muito do nosso trabalho", sustenta Nery, que lidera uma equipe de 11 pessoas, do motorista do veículo usado no trabalho, uma van equipada, conhecida como "laranjão", ao coordenador.

Atendimento. Além das conversas, são oferecidos preservativos e encaminhamento para centros de saúde quando são detectadas patologias paralelas, entre outros serviços.

Os Consultórios de Rua funcionaram em Salvador de forma ininterrupta de 1995 até 2004, em parceria com as Secretarias de Saúde e Justiça do Estado. Depois de anos de suspensão por falta de recursos, o projeto foi retomado no ano passado e ampliado para duas importantes cidades da região metropolitana, Lauro de Freitas e Camaçari.

Em Salvador, o trabalho é desenvolvido em dois pontos identificados pelo grupo como os mais problemáticos, com intenso comércio de drogas: a Feira de São Joaquim, no bairro Comércio, e a Rua do Gravatá, no centro histórico.

Nery não tem muitas histórias de rejeição para contar: garante que a aceitação é grande. "Visitamos cada local duas vezes por semana. Quando faltamos por problemas que independem da nossa vontade, sempre somos cobrados pela ausência", conta.

 

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