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Pílula do dia seguinte do HIV

Já imaginou tomar um remédio antes e depois do sexo para prevenir a aids? Um estudo que vem sendo realizado desde 2012 na França e no Canadá - Ipergay -, com 400 homens que fazem sexo com homens, testa um esquema mais simples e prático de prevenção de infecção por HIV. Bom lembrar que o método anterior, a profilaxia pré-exposição (PrEP), já usado em diversos países, exige a ingestão diária e contínua de comprimido.

Jairo Bouer

09 Novembro 2014 | 02h01

Segundo artigo da Agência de Notícias da Aids, publicado na semana passada, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) comemorou os resultados promissores do trabalho. No novo esquema proposto, a pessoa toma dois comprimidos algumas horas antes do sexo e mais um comprimido nos dois dias seguintes.

A PrEP é considerada um recurso adicional de prevenção ao HIV, indicada para pessoas com alto risco de se contaminar, como homens que fazem sexo com múltiplos parceiros e não se protegem de forma consistente - o uso regular de camisinha.

De forma análoga ao que acontece com a pílula anticoncepcional, a PrEP consiste em usar um único comprimido ao dia. A combinação de duas drogas antivirais (emtricitabina e tenofovir), segundo uma série de estudos, reduz de forma dramática a chance de infecção pelo HIV. Mas o método, para alcançar sua máxima eficiência, exige que a pessoa não se esqueça de tomar o remédio, o que pode ser um problema para muita gente.

Já a nova proposta de esquema de prevenção se assemelha mais à da pílula do dia seguinte, com um uso mais pontual da medicação. Para quem tem uma vida sexual muito frequente e diversa, é provável que seja mais fácil seguir o esquema contínuo. Os dados estatísticos que comparam a eficácia da nova posologia com a da PrEP tradicional vão estar disponíveis a partir do próximo ano.

Por aqui, um estudo conhecido como PrEP Brasil (prepbrasil.com.br) testa a viabilidade de se usar o método do uso diário de antivirais no País. Voluntários estão sendo recrutados no Rio e em São Paulo. Enquanto isso, o Ministério da Saúde avalia a possibilidade de dispor dessa modalidade de prevenção na rede pública.

Outras DSTs. Mas não é só a aids que preocupa quando se fala nos riscos do sexo sem proteção na população gay. Um novo estudo realizado pela Fiocruz, publicado na Folha de S.Paulo na semana passada, que acompanhou 600 homossexuais em Campinas, no interior, revelou que 7,6% deles são portadores de HIV, 11% foram contaminados pelo vírus da hepatite B e 10% pela sífilis. Para qualquer das doenças, essa é uma proporção pelo menos dez vezes maior do que a encontrada na população geral.

Outro dado importante mostra que 30% dos homens testados tiveram uma coinfecção - estavam contaminados por mais de um agente infeccioso ao mesmo tempo. Pesquisas mostram, por exemplo, que a sífilis aumenta muito o risco de contaminação por HIV. Mais: os anticorpos contra os dois tipos de HPV mais ligados ao câncer (16 e 18) tiveram prevalências altas, de 31,9% e de 20,3%, respectivamente, na população pesquisada.

Outro estudo feito há cerca de dois anos no centro de São Paulo, pela Santa Casa e pela Secretaria Estadual da Saúde, já mostrava uma prevalência elevada de HIV na população de homens que fazem sexo com homens, cerca de 20 vezes maior do que na população geral.

Se, de um lado, as novas tecnologias como a PrEP podem diminuir muito a chance de contaminação por aids, é importante reforçar outras formas de abordagem para prevenir as demais DSTs. Um dos receios é que novas tecnologias possam diminuir ainda mais a aderência ao preservativo.

Existem vacinas disponíveis para prevenir infecção por vírus da hepatite B e do HPV e a boa e velha camisinha continua a ter papel central na barreira contra as demais doenças transmitidas pelo sexo. Campanhas e ações preventivas específicas para a população gay também podem ter papel importante para mudar o rumo dessa história.

Correção. No texto da semana passada a frase final correta é: Mesmo em homens com história familiar de câncer de próstata e população negra (grupos de maior risco), o teste de PSA não apresentou benefícios.

*Jairo Bouer é psiquiatra

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