'Pescador' de lixo recolhe 2 t de pet por mês do Tietê

Ele diz nunca ter visto um peixe vivo em mais de dez anos de trabalho

Artur Rodrigues, Epitacio Pessoa, O Estado de S.Paulo

05 Junho 2013 | 02h03

SÃO PAULO - Há 13 anos, Everaldo Lagarto, de 61 anos, acorda cedo e inicia uma tarefa que jamais conseguirá terminar: a de limpar o Rio Tietê. Com um barco de madeira, ele navega no meio do lixo e recolhe as ilhas de garrafa PET que se formam no curso d'água na altura de Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo. Em sociedade com o cunhado, chega a recolher mais de duas toneladas por mês. A montanha de plástico não rende mais de R$ 2 mil para os dois.

O carroceiro flutuante afirma que já viu de tudo por ali. Até dinheiro. A única coisa que nunca encontrou em mais de uma década foi um peixe vivo nadando pelo rio. "Isso entristece porque o Tietê é uma obra de Deus. Mas, ao mesmo tempo, é meu ganha pão."

A reportagem encontrou Lagarto na última terça-feira, por volta das 10h, quando ele se esticava para recolher garrafas com as mãos. Ao ser chamado, veio remando até a margem. Deu bom dia, desceu do barco, tirou as luvas - duas em cada mão - e abriu uma garrafa de café bem quente. "Estão servidos?", ofereceu.

Apesar do jeito tímido, Lagarto se solta ao falar como é a vida navegando no meio do lixo que as cidades da Região Metropolitana de São Paulo despejam no rio. O bote dele esbarra em pneus, capacetes, bolas de futebol, chapéus, cadáveres. "Tem coisa que eu vejo aqui que é melhor nem falar."

Prática. Como todo marinheiro experiente, ele sabe quando é seguro navegar. É que o Tietê também tem sua maré, nada dócil quando as comportas do rio se abrem. "Isso acontece às segundas, quintas e domingos. Aí o jeito é encostar uma margem para não ser levado."

Pouca gente se arrisca. Além dele e do cunhado, cada um em um barco e em um trecho diferente do rio, há um outro homem que aparece por lá. "Quando ele fica sem dinheiro, pega um barquinho e vem aqui. Mas a gente fica de domingo a domingo, das 7h da manhã às 7h da noite. Não tem feriado."

Na margem, ele e o cunhado improvisaram uma espécie de porto. Ali, separam os materiais em grandes sacos de feltro para serem levados por um caminhão que alugam. Pelo quilo de garrafas PET, conseguem R$ 0,90. Após a divisão com o sócio, não sobra mais de R$ 1 mil para cada. Mesmo assim, Lagarto manda um dinheiro para a mulher e as duas filhas em Caruaru (PE). "Quando terminar de construir minha casa lá, poderei voltar. Mas, com o dinheiro que consegui até agora, só consegui comprar as colunas."

Enquanto não volta para a família, a única companhia que tem durante o dia são os pássaros, que sobrevivem ali apesar da podridão. Sem ninguém para ouvir, ele canta forró para matar as saudades de sua terra. "Ela tem cheiro de fulou da fuloresta/é uma festa o olhar dessa mulher", cantarola para a reportagem a música que ficou conhecida na voz de Abdias dos 8 Baixos, em disco de 1965.

O pouco tempo que passa em terra é à noite, na frente da televisão. De vez em quando, vê alguma reportagem sobre a limpeza do rio e reflete que até tem encontrado menos lixo que há dez anos. "Mas ficar limpo, limpo... é difícil."

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