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PCC ordenou vingança contra agentes de presídio

Marcelo Godoy - O Estado de S. Paulo

23 Agosto 2014 | 03h 00

Mensagens de Penitenciária de Presidente Venceslau reforçam suspeita; detentos reclamam de maus-tratos em Praia Grande

SÃO PAULO - Três mensagens interceptadas pela inteligência da polícia apontam para o Primeiro Comando da Capital (PCC) como o responsável pelo assassinato do diretor de segurança do Centro de Detenção Provisória (CDP) de Praia Grande, Charles Demitre Teixeira, de 30 anos.

As conversas entre integrantes da cúpula da facção detida em Presidente Venceslau e criminosos em liberdade foram interceptadas nos dias 6, 7 e 14 de julho. O assassinato de Teixeira seria uma vingança contra o que a facção chamaria de "opressão dos irmãos presos".

Maurício de Souza/Estadão Conteúdo
Carro de Teixeira foi atingido por 60 tiros quando o diretor chegava em casa

Diante do ataque, o secretário da Administração Penitenciária, Lourival Gomes, foi nesta sexta-feira à Baixada Santista e se reuniu com os comandantes da PM na região, coronel Ricardo Ferreira de Jesus, e da Polícia Civil, o delegado Aldo Galiano Junior. À Polícia Militar, Gomes pediu reforço da segurança pessoal dos agentes prisionais que trabalham no CDP de Praia Grande. Ao delegado Galiano Junior, o secretário pediu empenho no esclarecimento do crime e de outras quatro mortes de agentes ocorridas desde 2011 na região, todas com características de execução.

Chamadas de "salve", as comunicações da cúpula da facção ordenam a punição de funcionários da administração penitenciária que fossem responsáveis pela "opressão" nos CDPs do Estado. "Não tenho dúvida de que foi a facção. O 'salve' dizia: 'Se houver opressão é para pegar o guarda'", disse um dos responsáveis pela investigação do crime organizado em São Paulo.

No dia 7, a cúpula da facção determinou que fosse feita uma apuração. A resposta chegou aos criminosos no dia 14, quando foram relatados supostos maus-tratos a um detento no CDP de Praia Grande.

Segundo o delegado Fernando Henrique Fernandes Faria, os bandidos que emboscaram Teixeira dispararam 60 tiros em direção ao carro do agente prisional - 46 deles eram de um fuzil calibre 5,56 mm e os outros foram disparados com uma pistola calibre .40.

Teixeira trabalhava havia nove anos no CDP de Praia Grande e, em razão da violência registrada contra os policiais daquela unidade, ele ia e voltava do trabalho com escolta. Na noite do crime, quando foi surpreendido pelos bandidos, seus vizinhos não viram a escolta.

Momentos depois da morte do diretor do CDP, a polícia foi avisada de que um carro de cor prata, com placa falsa, havia sido incendiado no bairro Cidade Náutica, em São Vicente. O veículo tinha marcas de bala no capô - a polícia suspeita de que o veículo foi usado no crime.

Oficialmente, a polícia trata o caso com cautela. "Só temos certeza de uma coisa: trata-se de uma execução", afirmou o delegado titular de Praia Grande, Aloízio Pires de Araújo. Os policiais estão atrás de câmeras de monitoramento que tenham filmado a ação dos bandidos. Araújo disse desconhecer informações sobre supostos espancamentos no CDP.

Outros casos. Teixeira foi o terceiro agente do CDP morto em um mês. Dois outros foram mortos em caso ainda não totalmente esclarecido pela polícia - as mortes aconteceram nos dias 14 e 15, em Mongaguá, e foram objeto da conversa de Gomes com o delegado Galiano Junior.

"Um dos agentes teve alta e desapareceu do hospital. Acredito que, por uma questão de segurança, ele quis se proteger, não aparecendo nem sequer em sua residência", completou o delegado Araújo. Na semana que vem, o diretor-geral do CDP e uma série de funcionários do presídio começam a ser ouvidos no inquérito que apura o assassinato. Teixeira era casado e tinha quatro filhos. / COLABOROU ZULEIDE BARROS