Pavio curto, intuição, habilidade em lidar com a multidão

Análise: Jotabê Medeiros

O Estado de S.Paulo

07 Março 2013 | 02h01

Instintivo, misógino, pavio curto, confuso, ignorante: uma banda com um líder com essas credenciais não tinha como não dar certo. Foi o carisma rude e errático de Chorão que impulsionou o grupo santista Charlie Brown Jr. a se tornar um dos maiores do rock nacional dos últimos 20 anos.

Alexandre Magno Abrão, o Chorão, sabia como acelerar as pulsões da multidão. Rodopiando em cima de um skate, roubou a cena do grupo Linkin Park no Morumbi, em 2004, à frente de 80 mil pessoas. Seu trunfo sempre foi uma sinceridade meio bruta, áspera, sem acabamento. "Sempre quis falar, nunca tive chance/ Tudo o que eu queria estava fora do meu alcance", reivindicava, em Não é Sério.

Surgido na euforia do funk metal do início dos anos 1990 - Red Hot Chili Peppers e Voodoo Glow Skulls -, o Charlie Brown Jr. soube dar uma leitura urbana e reconhecível à mistura de ska, funk, hardcore, rap e rock-n'-roll. Isso fez eco em um vácuo geracional e, ao mesmo tempo, o fez ser execrado pelo rock à esquerda, de maior impacto nas universidades.

O acaso foi mestre de Chorão. Sua carreira teve início em 1992, quando o vocalista assistia a um show num bar em Santos. O cantor teve de ir ao banheiro apressadamente e deixou o microfone com Chorão, que resolveu se arriscar. Saiu aclamado. O nome Charlie Brown foi escolhido após Chorão bater o carro em uma barraca de coco com esse nome. Por questões de copyright, tiveram de acrescentar o "Júnior". A fama de troublemaker veio rápido. "Quem esse CPM 22 pensa que é? É uma bandinha de playboys. Badauí, se você cruzar no meu caminho, está ferrado!", afirmou, sobre o grupo rival.

Em 2004, em Teresina, Chorão esmurrou e quebrou com uma cabeçada o nariz do vocalista do Los Hermanos, Marcelo Camelo. Em 2008, foi retirado de um avião da Gol por se recusar a desligar um equipamento eletrônico.

"Eu não sei fazer poesia/ Mas que se f...", diz a letra de Reggae do Sapato. Raros roqueiros de sua geração tiveram tanto talento para fazer hits imediatos. "Música não cumpre o papel do pai e da mãe e nem a função do Estado de educar seus cidadãos. Acima de tudo, música pra mim é diversão e entretenimento", disse, em 2008. A profissão de fé na intuição gerou momentos musicais inspirados, como em Tudo que Ela Gosta de Escutar ("O pai dela riu de mim porque meu carro é popular"), que ironicamente o emparelhou com Chico Buarque e seu Jorge Maravilha ("Você não gosta de mim, mas sua filha gosta").

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