Paulistanos vão ao happy hour cada vez mais tarde

Chuva, trânsito e mais tempo no escritório empurram para depois das 20 horas o antigo hábito de encontrar os amigos às 18

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2010 | 00h00

Impossível chegar ao barzinho às 18 horas. O trânsito, as chuvas e as jornadas intermináveis de trabalho empurraram o happy hour noite adentro. O tradicional drinque para relaxar depois do expediente agora começa por volta das 21 horas.

Rodrigo Malizia, de 30 anos, que trabalha em um banco de investimentos, conta que na terça-feira chegou cedo ao bar, 21h30. Mas isso é porque trabalha perto. "O banco é aqui no Itaim mesmo. Se tivéssemos de pegar carro para ir a outro bairro, não daria tempo", avalia.

Reserva. Pelo menos cinco engravatados da mesa de Rodrigo, no bar Wall Street, estão na mesma situação. A engenheira Rossana Fragoso, de 29 anos, aniversariante, conta que, às 19 horas, ainda estava no escritório cortando o bolo. "Tentei reservar mesa às 20 horas, mas eles disseram que só poderiam segurar até as 20 horas. Ou seja: eles têm lugar na hora do happy hour tradicional, mas, depois, enche."

Tradição. Especialista em drinques e bebidas, o professor da faculdade Anhembi-Morumbi Rick Anson explica que, originalmente, o happy hour era o momento em que o trabalhador formal, que dá expediente de 8 às 17 horas, relaxava antes de ir para casa. "Nos anos 1950, havia o "time tini", que era a hora do Martini, consagrada pelo Frank Sinatra e que fez milhões de seguidores mundo afora. Mas era às 17 horas", afirma.

O professor localiza o começo do "atraso" do happy hour nos anos 1990, com o individualismo dos jovens que trabalhavam no mercado financeiro. "Dos yuppies para cá, o mundo foi mudando de turno. Hoje, tem bar que faz dois happy hours. Um às 18 horas, outro às 21 horas."

Horário alternativo. Chico Lowndes, do bar Pandoro, nos Jardins, criou na parte de trás da casa um espaço só para o pessoal do segundo turno. Lowndes conta que o Clube Pandoro, como foi batizado, é frequentado pelos que ele chama de profissionais da "economia criativa".

"São as pessoas que não têm horário fixo para trabalhar, os publicitários, designers, produtores de cinema, jornalistas. Eles sabem que aqui a coisa rola mais tarde, não tem pressa de chegar nem de sair", explica Lowndes.

Em uma mesa de publicitários, Felipe Iacoca, de 31 anos, e Sérgio Almeida, de 37, explicam que os horários específicos de cada categoria profissional (ou a diferença de turnos) levaram a uma espécie de sectarismo por áreas de atuação. "Tem happy hour de publicitários, de advogados, do povo do mercado financeiro", contam.

Vila Madalena. Para deixar as coisas mais claras, a empresária Maria Pia Dessewffy, de 42 anos, convencionou o atraso do evento em seu bar, o Nô Café, na Vila Madalena. Todas às quintas-feiras, acontece o "late happy hour" (na tradução livre, hora feliz atrasada). "Quem é que vai sair às 17 horas do trabalho pra ficar parado no trânsito e acabar chegando aqui uma, duas horas depois?"

"Eu prefiro ficar no escritório até mais tarde. Pra mim, o ideal é sair depois das 20 horas", diz o industrial Sylvio Ribeiro de Lima, de 49 anos, que mora no Morumbi.

Retorno. E a que horas os frequentadores do happy hour tardio vão embora pra casa?

A gerente de marketing Alessandra Portela, de 31 anos, diz que muitas vezes o happy hour é só o começo de uma noite prolongada. "Depende da demanda", condiciona.

NOVAS REGRAS

Horário

O movimento do happy hour tardio começa por volta de 21h

Grupos

Para evitar desencontros, há bares que reúnem profissionais de categorias específicas, como publicitários e jornalistas

Começo

Os mais jovens encaram o happy hour tardio como o começo da balada

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