Tiago Queiroz
Tiago Queiroz

Paulistano cria miniflorestas em apartamentos

Jovens colecionam grande quantidade de plantas em apartamentos; para eles, verde ajuda a desconectar da correria e leva aconchego à vida

Juliana Diógenes, O Estado de S.Paulo

18 Março 2018 | 03h00

Na pequena floresta particular de Giovana, Taniel e Lucas, o sofá, a mesa, os quadros, a televisão e todo o restante do apartamento são meros personagens secundários. As plantas estão por toda parte: entopem uma estante inteira, espalham-se na mesa de trabalho, preenchem a banheira, caem do teto. Na “selva de pedra”, as miniselvas de apartamento estão conquistando jovens na faixa dos 30 anos, que têm buscado formas de trazer a natureza para perto e desacelerar em meio à rotina urbana.

Em um apartamento de 82 metros quadrados no Sumarezinho, na zona oeste de São Paulo, a produtora cultural Giovana Suzin, de 30 anos, acumula aproximadamente 150 plantas. Ela tem uma estante na sala dedicada só a elas. O próximo passo é tirar a televisão do local para dar espaço a novos vasos e instalar outra estante exclusiva para o “verde” – já encomendada – no escritório.

Somente quando ir à Feira de Plantas e Flores do Ceagesp se tornou um hábito que Giovana se deu conta do tamanho da paixão. “Quando percebi, minha casa estava dominadas de plantas”, conta. Em vez de ir sozinha, passou a levar amigos. “Nos últimos dois anos, o interesse geral, principalmente da minha faixa etária, cresceu muito. Vários amigos começaram a procurar conhecer mais sobre plantas e comprá-las.”

O barista Taniel Kurtz, de 34 anos, mora em um apartamento de 42 metros quadrados, próximo ao Minhocão, na zona central, tomado por 40 vasos. À noite, ele desliga as lâmpadas e deixa somente as luminárias acesas para não atrapalhar o desenvolvimento de algumas plantas. Ao sair para o trabalho, avisa: “Estou saindo e volto logo”.

O amor pelas plantas tem origem na infância no interior gaúcho e remonta à memória afetiva da própria mãe, que cultivava muitas plantas na casa da família. “Quando fui morar sozinho em São Paulo (em 2015), a primeira coisa que comprei não foi a cama, mas duas plantas”, diz. Kurtz só percebeu que essa relação ficou séria quando se viu comprando três tipos de planta por semana. “E as pessoas que me visitam também ficam bem assustadas com a quantidade de plantas que eu tenho”, afirma ele.

Diariamente, o barista reserva uma hora e meia para checar o estado de saúde de cada planta. Aos domingos, dedica pelo menos quatro horas. Além de manter luzes menos diretas no período noturno dentro de casa, ele também dá banho em três delas, no box do próprio banheiro. Por causa da folhagem maior e mais grossa, a rega dura 30 minutos sob o chuveiro.

“Planta traz bem-estar ao ambiente. Quando vou para a casa de amigos sem plantas, tenho a sensação de estar em um escritório. As pessoas deixam a casa parecida com o lugar onde trabalham. As plantas trazem aconchego e vida para o apartamento.”

Na Santa Cecília, região central, até a banheira do designer de jogos Lucas Carvalho, de 30 anos, virou uma minisselva. No apartamento de 110 m², são pelo menos 80 plantas. Para sistematizar a rotina, ele criou uma lista com a catalogação de todas as espécies e o calendário de dias da semana para a rega. Por ser freelancer, ele pode dedicar mais tempo e atenção aos vegetais de estimação.

“Sou extremamente acelerado. No meu caso, as plantas ajudam muito a me manter focado. Cuidar delas é o momento que tenho de reduzir a velocidade, olhar cada uma delas com mais calma e focar.”

Cursos

A busca por mais conhecimento sobre plantas também foi diagnosticada na Escola de Botânica. Em 2017, houve aumento de quase 300% de alunos, e 85% do público é de jovens entre 25 e 35 anos. O curso mais procurado na escola é o de cultivo de plantas em apartamentos.

Segundo o idealizador da escola, o biólogo e botânico Anderson Santos, a instituição “praticamente nasceu com esse curso”. Antes de criar a escola, que foi pensada para traduzir a linguagem científica da botânica para leigos, ele investigou em São Paulo quais eram as dúvidas das pessoas sobre plantas. “A maior parte era sobre a dificuldade de cultivar plantas em apartamento por causa da limitação da luminosidade.”

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Na Escola Municipal de Jardinagem, o curso mais procurado é o de hortas. A maioria dos interessados, segundo o diretor Adão Martins, busca informações para o cultivo de ervas aromáticas e temperos em espacinhos livres do apartamento. “As inscrições se esgotam em poucas horas. As pessoas têm procurado formas de cultivar alimentos de forma mais saudável em casa”, conta. “No momento em que a pessoa fica mexendo com planta, parece que ela esquece do mundo. Já está comprovado que trabalhar com terra tem efeitos terapêuticos muito importantes.”

Dicas para cultivo em apartamento

- Sol: Opte por ervas aromáticas e temperos só se for possível mantê-los por pelo menos 4 horas diárias em contato direto com o sol. Veja os cômodos com mais luminosidade para comprar plantas de acordo com características do local. 

- Rega: Suculentas e cactos precisam ter rega espaçada, de uma semana a 15 dias. Não encharque o solo. Cuidado ao deixá-las expostas em varandas ou janelas: podem mofar se tomarem muita chuva. <MC0>Muitas plantas morrem mais pelo excesso do que pela falta de água. Portanto, antes de regar, o ideal é sentir se o solo está ressecado ou úmido o suficiente.

- Vaso: Se quiser cultivar plantas maiores, com raízes profundas, opte por vasos mais profundos. Use baldes e latas como vaso.

- Nativas: Opte por plantas de espécies nativas, de preferência as brasileiras e paulistas, porque estão mais adaptadas ao clima.

- Adubo: Aplique na terra adubações como húmus de minhoca, esterco de vaca e até cinzas de lenha quatro vezes ao ano.

- Pragas: Contra pragas, evite usar veneno. Para o combate de pulgões e colchonilhas, opte por óleo de nim (vendido em supermercados). Misture com água e borrife.

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