Paulistano conquista campeonato de trenós com cães - e muita neve

Estudante do Morumbi vence competição sul-americana de sled dog em Ushuaia

EDISON VEIGA, USHUAIA / ARGENTINA, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2012 | 03h05

Julio Casares tem apenas 17 anos e foi o primeiro brasileiro a participar do campeonato sul-americano de trenós puxados por cães, realizado em Ushuaia, na Argentina. E, logo na estreia, fez com que a bandeira brasileira se tornasse o centro das atenções, colorindo de verde e amarelo o gélido cenário dominado pelo branco: o garoto levou a melhor, desbancando as 19 equipes concorrentes e se sagrando campeão do torneio.

A competição da modalidade - chamada oficialmente de sled dog - ocorreu entre os dias 25 e 29 de junho e Julinho, como é conhecido, registrou o melhor tempo em todos os dias. O circuito percorrido media 21 quilômetros de extensão.

"A ideia é voltar a competir no ano que vem", antecipa. "Quero montar duas equipes. Eu conduzirei uma e um amigo, outra." Cada equipe é formada por seis ou sete cães - seis correm e pode haver um "na reserva".

Esse paulistano é apaixonado por cães de neve desde a infância. "Atualmente, tenho 25 cachorros de raças nórdicas", conta.

Incentivo. Filho de um publicitário e de advogada, há dois anos ele teve o incentivo da família para transformar o hobby em negócio. Montou um canil, que ele mesmo administra em Boituva, no interior paulista. "É algo que levo a sério. Pretendo trabalhar com isso pela vida toda", afirma Julinho, que mora no bairro do Morumbi, cursa o 3.º colegial na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e pretende, no ano que vem, iniciar uma graduação em Marketing.

Em janeiro de 2011, em viagem de férias a Ushuaia, Julinho foi conhecer o centro invernal Llanos del Castor - famoso na região pelos cães treinados para puxar trenós. Conheceu então Alberto Cichero, administrador do local e envolvido com um projeto: resgatar a tradição do campeonato sul-americano de trenó, cuja última edição havia ocorrido em 2008, e voltar a fazer da competição um evento anual. "Fiquei surpreso ao saber que ele criava cães nórdicos no Brasil. Tratei então de convidá-lo para participar do nosso campeonato", relata Alberto.

De volta ao País, Julinho se viu com um problema: como treinar seus cães sem neve? "Bolamos um sistema em que eu ficaria numa espécie de triciclo. E os cães me puxariam assim", conta. "Aí fizemos um projeto desse triciclo e encomendamos para uma empresa."

Em março do ano passado, o garoto começou a treinar. No início, quinzenalmente. Depois a frequência foi aumentando, até chegar a uma maratona de exercícios diários.

O paulistano levou para a competição seis cães da raça malamute. "Cada um está avaliado em cerca de R$ 5 mil", estima. Thor e Coral foram comprados nos Estados Unidos - Coral é nascido no Alasca. Tyler é russo. Megan, Milley e Iniq são brasileiras, nascidas no canil de Julinho.

Preparação. Para se adaptarem ao frio da Terra do Fogo, os animais foram remetidos a Ushuaia dois meses antes da competição. "Nós os acondicionamos em caixas de largura suficiente para que conseguissem dar uma volta em pé", diz o garoto. "Chegando com antecedência, eles puderam desenvolver a pelagem e se adaptar à neve." O próprio Julinho esteve no local em maio para fazer um treinamento durante um fim de semana. Depois, chegou cerca de duas semanas antes da competição para praticar intensamente até o início da prova.

Já na abertura do campeonato, no dia 25, o porte dos cães de Julinho chamava a atenção de concorrentes e torcedores que acompanhavam a competição no Llanos del Castor.

"São animais que participam de exposições de beleza no Brasil", explica ele. "Meus amigos de São Paulo ficam intrigados quando sabem que eu pratico corrida de trenó, afinal é um esporte muito desconhecido no Brasil. Mas depois ficam curiosos e acham muito legal", comenta Julinho.

Sem neve. Em Ushuaia, seus concorrentes também ficaram espantados. "Todos achavam estranho, afinal era a primeira vez que tinha um brasileiro competindo", recorda-se. "Eles demonstraram especial curiosidade em saber como é que eu tinha feito para treinar sem neve."

"Espero que ele esteja abrindo a porta. Que a história dele ajude a deixar esse esporte mais conhecido no Brasil e, quem sabe, recebamos outros brasileiros nos próximos anos", diz Alberto, o organizador da competição. "O Brasil é um país tão querido e tão próximo e acredito que pode vislumbrar um futuro promissor na corrida de trenós."

De troféu na mão, Julinho compartilha esse otimismo. "Desejo que, na minha esteira, venham outros brasileiros", diz ele.

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