Passeio desvenda as galerias de São Paulo

De inspiração modernista, elas são centros comerciais e passagem dos paulistanos

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2010 | 00h00

Nos emaranhados urbanos da São Paulo velha guardada no centro, as milhares de formiguinhas humanas distraídas parecem não notar preciosidades perdidas no cotidiano. Mas estão lá, entre preservadas e esquecidas, nas históricas galerias - todas de inspiração modernista - que, decadentes, se avizinham no ir e vir de transeuntes das ruas mais antigas. Um exemplo: Portinari e Niemeyer, juntos. Outro? Galerias siamesas. Mais: há uma galeria com nome de shopping e outra com nome de rua.

Esse mundo comercial e cultural, ponto de passagem e paragem dos cidadãos que frequentam o centro paulistano, é tema de passeio monitorado previsto para sábado. "Foram dois meses de pesquisa e andanças para planejar o percurso", conta a historiadora Paula Ester Janovitch, monitora do trajeto e autora do capítulo "Os Segredos das Passagens: Percurso pelas Galerias do Centro Novo", do livro Dez Roteiros Históricos a Pé em São Paulo (Narrativa Um, 2007; 238 págs.).

"As galerias paulistanas obedecem a uma linguagem moderna. Eram nelas que os artistas e arquitetos começaram a formam parcerias, explícitas nos murais internos, por exemplo", explica. "Elas concentravam a vida cultural e artística dos anos 40 e 50." Depois, com a transferência do eixo econômico da cidade do centro para a região da Avenida Paulista, esses espaços entraram em decadência. "A exceção talvez seja a Galeria do Rock", diz Paula. "Por ter encontrado uma unidade temática, é a que melhor se sustenta hoje em dia."

Passeio. A primeira parada do passeio será a Galeria Ipê, na Rua Bráulio Gomes. Inaugurada em 1951 a partir das pranchetas dos arquitetos Plínio Croce e Roberto Aflalo, ela ainda preserva o letreiro original. Em seguida, será mostrada a Galeria 7 de Abril, na rua homônima. "As lojas comerciais acompanham as lúdicas curvas da galeria que parecem oferecer ao passante um passeio labiríntico pelas lojas e pelos pisos diferentes", analisa Paula.

Na mesma Rua 7 de Abril, a terceira parada. Ali fica a entrada da galeria que se chama Rua Nova Barão. "Parece rua, tem nome de rua, mas de fato é galeria", comenta a historiadora. Aberta em 1962, ela é reflexo de uma época em que o tráfego começava a se intensificar no centro, tirando o sossego dos pedestres. "Ela é filha legítima desse momento. Nela, continuava-se podendo caminhar com alguma tranquilidade. Na rua que não é rua, perdemos a pressa e ganhamos mais espaço na cidade", compara. "A passagem foi feita à imagem e semelhança das ruas, só para enganar o tempo."

Fica na Rua Barão de Itapetininga a mais charmosa dos anos 50, a Galeria Itá. Inaugurada em 1949, ela ganhou uma irmã siamesa 14 anos depois: a Galeria R. Monteiro (também chamada de Galeria 77), projetada pelo arquiteto Rino Levi - e que guarda uma parede de ladrilhos verdes criada por Burle Marx.

A próxima é na Rua 24 de Maio. Com suas tribos jovens, a Galeria do Rock tem shopping no nome oficial: Shopping Center Grandes Galerias. Aberta em 1962, ela foi reinventada nos anos 90, com lojas de vinis, seguidas por CDs e DVDs. De carona, lojas de roupas de bandas, estúdios de piercing e tatuadores. Foi projetada pela dupla Siffredi e Bardelli - os reis das galerias, pois também assinam a 7 de Abril, a Rua Nova Barão e a Centro Comercial Presidente.

Esta última, a propósito, é a próxima do roteiro. Fica na Rua Dom José de Barros. "Sua ocupação atual é quase exclusivamente de influência africana", afirma Paula. Ali há lojas de artigos de capoeira, produtos de beleza e cabeleireiros afro.

Na Rua 24 de Maio também está a galeria mais antiga do centro paulistano: a Guatapará, aberta em 1933. Ela nasceu do piso térreo do edifício homônimo, inaugurado em 1928 como sede da Companhia Agrícola Guatapará, do conde Atílio Matarazzo. Nos anos 40, recebia exposições de artistas plásticos. Hoje, está tomada por bares e pequenas lojas.

Perto dali, na Rua Dom José de Barros, fica a Galeria Califórnia, aberta em 1953. Assinada por Oscar Niemeyer, conta com um painel de 135 metros quadrados de Candido Portinari, todo feito de pastilhas de vidro. Fica na parede de uma rampa que, até os anos 70, dava acesso ao Cinema Barão. O passeio termina com outras dois endereços: as Galerias Itapetininga (na Rua Barão de Itapetininga) e Metrópole (na Rua Basílio da Gama).

Tour. O roteiro pelas galerias é o sétimo fruto de uma parceria entre o site Arq!Bacana e a Editora Narrativa Um. "Pretendemos realizar um passeio diferente por mês", adianta o editor Roney Cytrynowicz. "Nosso objetivo é oferecer novas formas de andar pela cidade e olhá-la."

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