FOTO TIAGO QUEIROZ|ESTADÃO
FOTO TIAGO QUEIROZ|ESTADÃO

Para os 200 anos, um novo Museu do Ipiranga

USP anuncia amanhã projeto para o restauro da instituição; ‘Estado’ teve acesso exclusivo

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

17 Dezembro 2017 | 03h00

Quatro anos e quatro meses depois de ser interditado às pressas, o Museu Paulista, mais conhecido como Museu do Ipiranga, na zona sul da capital, finalmente tem um projeto de restauro e ampliação. A Universidade de São Paulo (USP), responsável pela instituição, divulga amanhã que o escritório H+F Arquitetos é o vencedor do concurso promovido para a recuperação do edifício histórico.

Idealizada por uma equipe de 12 profissionais – com consultoria de outros seis –, a proposta vencedora, à qual o Estado teve acesso exclusivo, desbancou os 12 demais inscritos. “Uma decisão fundamental de nosso projeto é transferir o acesso ao museu para o piso inferior, em um subsolo de 3 mil metros quadrados a ser construído”, explica o arquiteto Pablo Hereñú. 

Este espaço, no nível do Parque da Independência, deve ter imensas vidraças que permitam a observação dos chafarizes e do ambiente externo. Ali serão instaladas bilheterias, livraria e café, além de um auditório e salas para o educativo do museu. Deste piso, um túnel levará a escadas rolantes que colocarão o frequentador no hall de entrada do edifício-monumento. “Bem na frente das escadarias, respeitando assim o ritual de acesso consolidado no imaginário dos visitantes”, pontua Eduardo Ferroni. 

Outra novidade é o uso das coberturas – anteriormente utilizadas para a reserva técnica e cujo sobrepeso é apontado como uma das causas para os problemas sofridos pelo imóvel com os anos – como espaços expositivos. Os arquitetos planejam construir passagens entre os três pontos do andar mais alto do museu, justamente para criar um fluxo de pessoas de um canto a outro. “Essas passagens serão envidraçadas, para que a vista privilegiada da região do Ipiranga possa ser apreciada pelo visitante”, completa Hereñú. 

E se a ideia é apreciar a paisagem, um mirante também deve ser construído no topo do edifício. “Em pesquisas iconográficas, encontramos registros de que, na inauguração do museu, em 1895, as pessoas puderam subir nessa cobertura. Resolvemos que esta experiência deve ser compartilhada com o visitante do século 21”, diz Ferroni. “Justamente por causa do parque, o prédio permaneceu um tanto isolado da mancha urbana. Assim, a vista dali revela uma geografia surpreendente.”

Os arquitetos ressaltam que, no projeto, as intervenções estão propostas para interferir o mínimo possível na volumetria do histórico edifício. “É preciso respeitar a presença do prédio na paisagem paulistana”, diz Ferroni. “Em suma, buscamos transformar muito o espaço interno, mas utilizando poucos elementos novos”, diz Hereñú. 

Para a historiadora Solange Ferraz de Lima, diretora do Museu do Ipiranga, as soluções apontadas pelos vencedores do certame foram felizes por, dentre outros fatores, promoverem uma melhor integração do edifício com o jardim do parque contíguo. “Eles apresentam, ainda, soluções criativas que tornam o próprio edifício um item de exposição, ao propor áreas que permitirão conhecer a estrutura do prédio, hoje desconhecida do grande público”, comenta Solange. 

Investimento

Com a proposta vencedora anunciada, os arquitetos terão 12 meses para realizar estudos, conhecer as análises já efetuadas e, por fim, apresentar um projeto executivo que deve nortear as obras de recuperação. 

Em paralelo, a USP continua em busca de uma engenharia financeira que viabilize o restauro e a ampliação. Estima-se que sejam necessários R$ 80 milhões. “A confirmação do orçamento das obras só acontecerá após a finalização do projeto executivo”, afirma a diretora da instituição. “Um projeto deste porte, de relevância nacional, depende de muitas frentes de apoio. Portanto, o modelo de financiamento prevê múltiplas fontes, combinando iniciativas das esferas privada e pública.”

“As interlocuções com o governo do Estado e o Ministério da Cultura se iniciaram e já estamos em tratativas com empresas do setor privado”, complementa Solange. 

A expectativa está mantida: que o simbólico museu da História do Brasil esteja de portas abertas novamente para as comemorações do Bicentenário da Independência, em 2022. “A mobilização é total nesse sentido”, diz a diretora. “E assim iremos até 2022. O museu é muito querido da população. A torcida não é só nossa, é de todos.” 

Histórico. Às margens do Córrego do Ipiranga, o prédio ficou pronto em 1890. Foi concebido pelo arquiteto e engenheiro italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi (1844-1915). O monumento acabou transformado em museu em 1895 – no primeiro ano, já recebeu 40 mil visitantes. Passou a ser administrado pela USP em 1963.

Esta é a quinta vez que o museu fica fechado ao público. Antes, teve o acesso interrompido em 1921, de 1953 a 1955, em 1961 e em 1963. A última reforma foi nos anos 1980.

A atual interdição foi decretada em agosto de 2013. Um dos mais visitados cartões-postais de São Paulo, – recebia um público médio de 300 mil pessoas por ano – o museu não suportou as toneladas de 150 mil itens do acervo, as intempéries, os então 123 anos de idade do prédio e a falta de obras de conservação. Seu fechamento foi anunciado após um laudo apontar graves riscos de queda nos forros de alguns cômodos. Conforme o Estado havia mostrado em novembro de 2012, pedaços de reboco da fachada estavam caindo e o forro de um dos principais salões havia cedido mais de 10 centímetros. 

De lá para cá, análises técnicas foram efetuadas no edifício. “A primeira etapa para viabilizar o projeto consistiu na contratação dos diagnósticos das fachadas e estrutural”, conta a diretora. “Agora conhecemos melhor o edifício, seus desafios, e temos também uma proposta arquitetônica vencedora.” Ou seja: se ainda falta a captação do dinheiro, pelo menos um caminho já existe para o Museu do Ipiranga renascer.

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