Pais ganham novo serviço em SP: o do ''taxista-chofer''

Sem tempo, famílias recorrem cada vez mais a motoristas de confiança para buscar os filhos na escola, na academia, na balada

Filipe Vilicic, O Estado de S.Paulo

21 Abril 2010 | 00h00

O taxista Reinaldo Zendron não depende mais de passageiros que pega na rua ou no ponto para garantir sua renda no fim do mês. "Hoje, mais de 80% do que ganho vem de trabalhos fixos que faço para clientes fiéis", conta. Ele atua como uma espécie de chofer levando crianças e adolescentes para a escola, para a balada, para as aulas de inglês. "Os pais trabalham e não costumam ter tempo para buscar os filhos. Por isso, precisam de alguém para fazer isso."

Zendron presta o serviço para 12 famílias. Todos os dias, por exemplo, ele busca quatro adolescentes em uma escola no Morumbi e os leva para suas casas, em Pinheiros, Perdizes e no Sumaré. "Além de ser cômodo, é uma forma de garantir a segurança de minha filha", afirma a arquiteta Neide Farran, de 53 anos. "Seria perigoso se ela viesse de ônibus ou de perua."

A arquiteta contrata o "taxista-chofer" desde o início do ano para pegar sua filha, Giulia, de 15 anos, no colégio. "Antes, quando ela estudava mais perto, no Butantã, conseguia buscá-la", lembra. "Mas, ao entrar no ensino médio, ela mudou para um endereço distante e não pude mais."

Foi então que ela soube do serviço de Zendron, por indicação de um colega de classe de sua filha. Neide se juntou, então, com outros pais para arcar com as despesas do motorista.

Confiança. Zendron começou na profissão de taxista em 2002. Após um ano nas ruas, um conhecido lhe propôs o serviço de buscar seu filho na escola. Ele topou. Assim iniciou o trabalho como chofer.

"Pela propaganda boca a boca, surgiram mais clientes", conta. "Sou pontual e honesto. Por isso, há muitos interessados." Hoje, mais de 20 crianças são confiadas ao seu volante.

Confiança, aliás, é algo importante na profissão. "Não dá para entregar seu filho para qualquer um", pontua Osvaldo Armani, que atua como "taxista-chofer" há cerca de dez anos. "Por isso, temos de provar que somos responsáveis. Mostro que tenho vários clientes e, portanto, referências."

O presidente do Sindicato dos Taxistas Autônomos de São Paulo (Sinditaxi), Natalício Bezerra da Silva, enfatiza a necessidade de ter um motorista idôneo. "Antes de contratar um indivíduo para guiar uma criança, certifique-se de que ele não é um criminoso, um louco", afirma. Ele sugere que os pais testem o motorista com algumas corridas. Assim, verifica-se se o taxista está apto para levar, de madrugada, um jovem a uma casa noturna.

Intimidade. A proximidade com as famílias faz com que os motoristas virem "de casa". "Já recebi convites para festinhas e sempre me chamam para almoçar", relata o "taxista-chofer" Armani. "Não gosto de aceitar todas as ofertas, porque aí mistura muito o pessoal com o profissional. Mas confesso que já cedi com alguns clientes fiéis."

Seu colega de profissão, Zendron, virou tão "tiozão" dos jovens que leva por aí que chega até a se ajoelhar na calçada para amarrar os cadarços do tênis da garota Giulia, sua cliente, durante a entrevista ao Estado.

"Ele é um fofo, megassimpático, e faz tudo que pedimos", diz, toda meiga, a estudante Julia Scheunemann, que também entra em seu táxi diariamente para voltar da escola. "Quando quisemos ir a um restaurante japonês, ele nos levou direto do colégio."

Extra. Segundo o Sinditaxi, não se sabe quantos dos 33 mil taxistas paulistanos realizam o serviço de chofer. "Mas é a maioria", garante o presidente, Natalício. "É uma boa alternativa para conseguir estabilidade e para engrossar a renda."

O serviço tem sido requisitado principalmente por pais que não podem ou não querem virar motoristas dos filhos. Mas adultos também usufruem da novidade. "Trabalho com senhoras que precisam ir ao médico, executivos que viajam muito, pessoas com seus carros em dia de rodízio", declara o "taxista-chofer" Antonio Clemente, que conta com cerca de 40 clientes fixos.

PRESTE ATENÇÃO

1.Tome cuidado antes de confiar seu filho a um motorista. "Procure referências", ensina o presidente do Sindicato dos Taxistas Autônomos de São Paulo, Natalício Bezerra da Silva. "Dê preferência para aquele que já trabalha com um amigo."

2.Combine como será o pagamento para não ser enganado. Uns cobram pelo taxímetro (aí, valem as bandeiras 1 e 2). Outros preferem fechar um preço por viagem

3.Tente lotar o táxi para sair mais barato. Se for contratar o motorista para buscar seu filho no colégio, por exemplo, veja se outros colegas da escola farão um trajeto parecido e se os pais topam dividir as despesas para todos irem juntos para casa

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