Felipe Resk/Estadão
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Pai salva bebê de incêndio, mas morre abraçado a outro filho

Menina de um ano foi jogada pela janela; Evandro Santos, de 23 anos, e Erick Rocha, de 4, foram carbonizados e não resistiram

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

30 Julho 2015 | 09h52

Atualizada às 22h38

Arremessada pela janela, uma criança de um ano e quatro meses foi salva pelo pai de um incêndio no barraco onde moravam, na região do Rio Pequeno, zona oeste da capital paulista, na manhã desta quarta-feira, 29. Emilly Grazielli acabou resgatada pouco antes de as chamas tomarem a casa, arruinando móveis, roupas e alimentos. Em meio aos escombros, os bombeiros encontraram os corpos do pai, Evandro da Silva Santos, de 23 anos, e seu enteado, Erick Evandro Sales Rocha, de 4, abraçados sob uma telha de amianto.

Equilibrado em estacas de madeira, o barraco foi erguido às margens de um córrego poluído, que cruza a Rua Camarazal. Santos havia se mudado para lá havia cerca de dois anos, quando resolveu morar com a faxineira Eurides Rocha, de 21. Na época, ela só tinha Erick, de outro relacionamento. Depois, viria Emilly. Para abrigá-los, a moradia ganhou uma divisória: de um lado, o casal e as crianças; do outro, a mãe e quatro irmãos de Eurides.

Apesar de morarem juntos, os dois só se casariam oficialmente no sábado passado, com direito até a cerimônia na igreja. “A felicidade da minha filha foi pouca: cinco dias”, diz a doméstica Adnalva Ferreira, de 37 anos, avó das crianças, que nos últimos anos também enterrou o pai e quatro irmãos. “Todo dia parece que perco um pedaço de mim.”

Adnalva conta que tudo aconteceu muito rápido naquela manhã. Ela havia acabado de sair para tomar banho na casa de uma vizinha, por volta das 10h50, quando a amiga, às pressas, apareceu com a notícia do incêndio. Na região, ninguém sabe dizer como as chamas começaram – as causas ainda serão apuradas pela perícia policial. “Estava embaixo do chuveiro e saí correndo, mas já tinha acontecido. O fogo levou dois barracos e duas vidas. Agora, estamos só pelo amor de Deus”, diz. Eurides estava no trabalho na hora da tragédia.

Outra filha de Adnalva, Vitória Ferreira, de 16 anos, que dormia no barraco, despertou com os gritos do cunhado. “Só ouvi: ‘Olha o fogo! Olha o fogo!’”, diz. “Quando olhei, as chamas já estavam subindo pela parede.” Vitória também relata que teve tempo apenas de acordar um irmão e carregar uma bolsa, com documentos e celular. Os dois conseguiram fugir sem ferimentos.

Santos, que por estar desempregado era o responsável por cuidar das crianças, precisou agir rápido. Em meio à fumaça e chamas cada vez mais altas, ele conseguiu carregar a filha até o banheiro e, por uma janela pequena, jogou a criança para fora da casa. A menina caiu no córrego, bateu a cabeça e engoliu água suja, mas foi resgatada com vida por um vizinho. “Ele poderia ter saído de lá, mas decidiu voltar para salvar meu neto”, conta Adnalva.

Quando policiais militares chegaram ao local, encontraram os moradores tentando apagar o fogo. Muitos entraram no córrego e usaram baldes e outros recipientes. Como o fogo estava alto, ninguém conseguia chegar ao barraco. O calor provocou a explosão de dois botijões de gás. Do lado de dentro, o silêncio acusava que havia algo errado. “Ele parou de gritar de repente. A gente acredita que desmaiou por causa da fumaça”, diz Vitória. Mais tarde, Santos seria encontrado caído de costas, envolvendo Erick com os braços.

Choque. Adnalva foi pessoalmente avisar a filha do incêndio. As duas só saberiam das mortes ao voltarem. “Ela está acabada”, diz. “Minha irmã está desesperada, sentindo até falta de ar. Ela perdeu o marido e o filho. Todos nós perdemos pessoas queridas”, afirma Vitória.

Levado ao hospital, o bebê foi medicado, recebeu alta e já está com a mãe. “Emilly está meio assustada, porque viu o desespero do pai”, diz Vitória. O incêndio é investigado pelo 51.º Distrito Policial.

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