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LUIZ FERNANDO TOLEDO/ESTADÃO

Pai e filho mudam de cômodo e se salvam: 'foi questão de segundos'

Outros dois filhos de Honório Oliveira dos Santos, de 57 anos, morreram na tragédia em Francisco Morato

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Luiz Fernando Toledo,
O Estado de S. Paulo

12 Março 2016 | 03h00

FRANCISCO MORATO - O aposentado Honório Oliveira dos Santos, de 57 anos, só lamentava. Em uma mão segurava o porta joias da filha Sandra, de 26 anos. Com a outra, os documentos de outro filho, Jorge, de 18. Ambos morreram soterrados em uma casa construída em um barranco na Estrada Municipal dos Porretes, na divisa de Franco da Rocha e Francisco Morato, na Grande São Paulo. 

Da pequena casa, de quatro cômodos, ficou só a cozinha em pé. E foi graças a ela que Santos e outro filho, Joel, gêmeo de Jorge, sobreviveram. A mãe dos meninos e esposa de Santos, Alderi, de 53 anos, estava na casa de uma vizinha.

Os quatro na casa assistiam a um programa de televisão, por volta das 22h, quando Santos foi comer acompanhado de Joel. Assim que deixaram o local, o teto dos cômodos desabou. 

Gritaram por socorro. "Foi por questão de segundos. O Jorge também ia para lá, mas nem deu tempo", contou o pai. Joel pediu ajuda aos vizinhos, que ligaram para o Corpo de Bombeiros. Em meio ao caos, estavam também sem energia elétrica. "Ninguém enxergava nada, não tinha para onde correr", contou a vizinha Vilma Maria Bezerra, de 54 anos. De acordo com ela, os bombeiros só chegariam ao local, acessado somente por uma estreita estrada de terra, quatro horas depois. "Ficamos completamente abandonados", disse a moradora.

O momento seguinte foi de mobilização dos vizinhos para tentar retirar os escombros, na esperança de que alguém estivesse com vida. Perderam qualquer esperança de chamar por ajuda: a bateria dos celulares acabara e não tinha onde carregar. "Nunca vimos uma situação assim. Foi puro descaso e isso dói muito. Meninos que nós vimos crescer, embaixo da terra", disse Vilma.

Tragédia. Sandra trabalhava em um call center. Sairia de férias no dia em que morreu. Jorge, que estava recebendo seguro-desemprego após ser demitido de um restaurante de fast food, sonhava com o dia em que seria jogador de futebol. Santista, os pais contaram que ele havia feito testes nos últimos dias para jogar em alguns times da região. 

Enquanto contava da vida dos filhos, Santos andava para lá e para cá sem saber o que fazer, repetindo frases. "Tão novos. Foi tudo por uns segundos. Meus filhos". Apegou-se ao cãozinho Beethoven, companheiro da família. Estava incapacitado até de buscar o corpo dos filhos, tarefa que designou a um sobrinho. "Só sobrou a cozinha, com panela e tudo. A comida ainda está lá. E eles nem puderam comer".

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