DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

Ouvidor, 63, há 3 anos nas mãos de artistas

Grafiteiros, circenses, músicos e pintores ocupam prédio do Estado; leilão não tem interessados

Edison Veiga, O Estado de S. Paulo

29 Abril 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Na segunda-feira, vai fazer três anos que um grupo de artistas se apropriou do prédio de 13 andares no número 63 da Rua do Ouvidor, no centro de São Paulo. Ocuparam, no léxico de alguns. Invadiram, de acordo com outros. Semânticas de cá e de lá, fato é que músicos, grafiteiros, escultores, circenses, atores e pintores deram nova vida ao edifício e uma denominação: Centro Cultural Ouvidor 63.

O grupo planeja comemorar com uma série de eventos no local ao longo deste fim de semana prolongado. Anteontem, o governo do Estado, proprietário do edifício desde os anos 1950, tentou vender o imóvel pela segunda vez, por meio de leilão. Assim como no ano passado, nenhum comprador demonstrou interesse.

Os moradores do endereço não são sem-teto. Acreditam que o local deve funcionar como uma usina de criação artística, nas mais diversas áreas, sem liderança, tudo horizontal, tudo tratado em assembleias, tudo de modo colaborativo. “Buscamos referências em outros lugares do mundo e ficamos seis meses pesquisando imóveis ociosos de São Paulo, até chegarmos a esse”, recorda o músico Luís Só, de 30 anos, vocalista da banda Nicolas Não Tem Banda, um dos precursores.

Limparam tudo. Pintaram. Fizeram pequenas reformas. Ainda fazem, aliás. Hoje são cerca de cem moradores - entre os quais, 12 crianças pequenas, filhas de artistas - espalhados pelos apartamentos transformados em ateliês e espaços de ensaio. No subsolo, a garagem foi convertida em uma oficina de marcenaria - utilizada pelos artistas para seus trabalhos - e outro espaço virou um estúdio. O térreo tem uma galeria onde os moradores expõem e vendem peças - o valor arrecadado serve para a manutenção das despesas comuns do prédio. E também há um brechó e um palco para shows e eventos.

Para circular pelos andares, é preciso estar acompanhado por um morador - há um revezamento predeterminado deles na portaria. “Tudo é definido em reuniões periódicas entre os moradores”, comenta o artista plástico D’Julia Gangary, de 41 anos. Cada andar realiza pequenas assembleias uma vez por semana. O prédio todo delibera questões mais abrangentes a cada 15 dias. “Para entrar, tornar-se novo morador, é preciso respeitar o trâmite”, conta Gangary. Isso significa passar pelo menos 30 dias como hóspede de um artista que já seja morador. E só então submeter seu projeto de arte para a assembleia-geral. É uma residência artística, afinal.

A fama do Ouvidor já ultrapassa fronteiras. Um dos andares só tem gringos: chilenos, argentinos, colombianos, mexicanos, peruanos, uruguaios, venezuelanos. “Eu estava na Bolívia e encontrei um chileno que me falou sobre este lugar. Vim na hora”, conta o artista circense colombiano Giussepe Gordillo, de 26 anos, que vive ali há oito meses com a mulher acrobata e a filha de 3 anos.

Pressão. “Sempre existe a pressão para sairmos”, admite Só, sobre as tentativas do governo de entregar o imóvel à iniciativa privada. Procurado, o governo do Estado esclareceu que o edifício “foi incorporado ao patrimônio do Estado em 1950, em razão de uma desapropriação”. “Ao longo do período, o espaço foi utilizado por algumas secretarias estaduais. Também foi alvo de invasões, para as quais o Estado obteve o direito de reintegração de posse pela Justiça. Em 2005, a CDHU realizou estudo para a implementação de moradias de interesse social, porém os resultados apontaram inviabilidade socioeconômica.”

Depois do segundo leilão malsucedido, na quinta-feira, a administração estadual definiu que o imóvel passará por análise administrativa. O mais provável é que haja uma nova tentativa de venda.

Inspiração vem de exemplos internacionais

Artistas transformando prédios abandonados em galerias de arte não são novidade ao redor do mundo. Em 1999, três deles ocuparam um edifício em ruínas – que pertencia a um banco – na Rua Rivoli, em Paris. Depois de muita polêmica, em 2006 o espaço acabou adquirido pela prefeitura e foi reaberto como centro cultural. Em Berlim, o Tacheles teve trajetória parecida, tornando-se um centro de resistência da arte alternativa. Lá esta história acabou em 2011, quando os proprietários do prédio conseguiram que os artistas o desocupassem. 

 

 

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