Os sapatos de seu Laganá

Consolato Laganá não passará à história de São Paulo pela coragem de um segundo casamento aos 101 anos de idade. Passará como o artesão dos sapatos anatômicos que calçaram os pés de mulheres e homens da São Paulo elegante por várias décadas. Mais do que interessado no sapato que os outros veem, o dono do pé é interessado no sapato que seus pés sentem.

JOSÉ DE SOUZA MARTINS, O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2011 | 03h03

Para caminhar sem sofrer, os ricos lhe pagavam tributo e pedágio. Calo, joanete, unha encravada, tudo que faz o pé sofrer tinha solução na oficina em que Laganá fazia suas obras de arte. Criou uma pedestre "filosofia do pé" ao se insurgir contra o costume de que os pés devem se adaptar aos sapatos: os sapatos é que devem se adaptar aos pés.

Na São Paulo das primeiras décadas do século 20, ainda havia sapateiros remendões que também faziam artesanalmente sapatos ajustados ao tamanho e aos defeitos dos pés de seus clientes. Mas aos poucos esses sapatos artesanais iam sendo preteridos, dada a preferência consumista por calçados industrializados, como os calçados Clark, de marca inglesa, fabricados também aqui em São Paulo, desde 1904. Os velhos sapateiros ficaram confinados no artesanato da meia-sola.

Mas as velhas oficinas eram uma instituição, concorrentes das farmácias, pois era ali que circulavam os fuxicos e intrigas locais e vicinais. Era ali que as grandes notícias do mundo eram mastigadas e reduzidas à compreensão que podia dar-lhes a lógica das crônicas de vizinhança. É verdade que os clientes falavam e o sapateiro apenas ouvia: a boca cheia de preguinhos de sapateiro, da qual tirava um a um para pregar a sola nova no sapato gasto. Não podiam falar os discípulos de São Crispim, sob risco de, em vez de pregar sapatos, pregar as próprias tripas.

Gente poderosa e agradecida, do prefeito ao governador, ia cumprimentar Laganá na oficina de segundo andar de um prédio da Praça da República, no lado oposto ao do Instituto Caetano de Campos. Eram os donos de pés felizes. Laganá conhecia a intimidade dos pés de mulheres e homens da grã-finagem.

O segredo do sapateiro estava em literalmente esculpir os pés de seus clientes em moldes de madeira, que mantinha guardados e identificados. Quando o cliente precisava de um sapato novo, simplesmente o encomendava, não precisava levar os próprios pés até o sapateiro. Laganá entregava sapatos em casa do cliente, pagos na caderneta, como fazia o padeiro com o pão.

Da Calábria. Consolato Laganá nascera em 1904, na Calábria, em Adami, uma aldeia idílica imortalizada em Terra Amada, belíssimo livro de sua sobrinha, Liliana Laganá, professora de Geografia, na Universidade de São Paulo (USP). Chegou a Santos, em 1922, foi com o pai para fazendas de café do interior e finalmente veio para a cidade aprender o ofício de sapateiro. Fez a América a seu modo: a elite colocou os pés em suas mãos.

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