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Os imóveis que ninguém quer. Nem de graça

Nataly Costa - O Estado de S.Paulo

10 Abril 2011 | 00h 00

Cenários de mortes famosas tornam-se ''micos'' e nem por valor 40% menor são negociados em SP

Os moradores da pacata Rua Santa Leocádia, na Vila Guilherme, zona norte, jamais imaginariam morar em um dos endereços mais conhecidos de São Paulo. Tudo por causa de um prédio branco e cinza na altura do número 138, com uma portaria onde se lê "Residencial London" e uma janela, a do 6.º andar, de onde Isabella Nardoni, aos 5 anos, foi atirada. O apartamento, hoje vazio, acabou entrando na lista dos endereços "malditos", aqueles onde ninguém quer morar.

O caso Isabella não foi o primeiro a jogar um feitiço negativo sobre um imóvel aparentemente em perfeitas condições de uso na cidade. Em 1937, os César dos Reis moravam em um abastado castelo no centro de São Paulo, mais precisamente na Rua Apa, quando um dos filhos matou, dentro da casa, a mãe e o irmão e depois se matou. O lugar está vazio até hoje - salvo as invasões de sem-teto que ocupam o prédio esporadicamente.

"Há um rechaço a esse tipo de imóvel, uma rejeição explícita por parte de qualquer um que seria um potencial interessado", explica o vice-presidente de Comercialização e Marketing do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP), Élbio Fernández Mera. "Além disso, se algum desavisado compra esse imóvel e depois vem a saber das histórias que ocorreram ali, tem o direito legal de pedir seu dinheiro de volta. É como se tivesse comprado um imóvel com defeito oculto."

Um dos bairros mais nobres de São Paulo, o Jardim Europa também tem seu "azarão": a Rua Cuba, que virou nome de crime após o assassinato do casal Bouchabki, crime até hoje sem solução. A casa levou quase 15 anos para ser alugada. Tem valor estimado de R$ 5 milhões.

Mera diz que há diversos casos em São Paulo em que o crime ocorrido na casa não toma grandes proporções e logo cai no esquecimento - e o imóvel é rapidamente ocupado, sem problemas. Não é o caso, porém, da mansão na Rua Zacarias de Góes, no Campo Bela, zona sul, cenário do assassinato de Manfred e Marísia Von Richthofen.

"Geralmente, o preço desses imóveis cai entre 30% e 40% por causa do crime. Mas não adianta. As pessoas preferem pagar mais caro em outro lugar", afirma o diretor da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp), Luiz Paulo Pompéia.

Crença. Segundo especialistas do mercado, o receio dos compradores se dá por um único motivo: superstição. "Claro que vai depender de cada um. Mas se uma pessoa acredita que aquele lugar tem fantasmas, não tem jeito, ela não fica ali", diz Fernández Mera.

O problema se estende também a áreas marcadas negativamente por algum desastre. É o caso da região do Jabaquara, zona sul de São Paulo, onde caiu o Fokker 100 da TAM, em 31 de outubro de 1996.

"Por muitos anos, as pessoas associaram o bairro à tragédia, ninguém queria uma casa ali. Pairava o medo de que um avião caísse novamente, já que ali é rota para (o Aeroporto de) Congonhas", diz Pompéia, lembrando também o bairro do Carandiru, na zona norte, marcado pelo antigo presídio, e a região da antiga Febem, na zona leste. Em boa parte dos casos, o burburinho da vizinhança ajuda a afastar possíveis interessados. "As pessoas fazem menção, relembram o dia da tragédia ou do crime, falam que ali morreram não sei quantas pessoas."3

Procura zero

R$ 2 milhões

é o valor de mercado da casa dos Richthofen, no Campo Belo, zona sul de São Paulo. Oito

anos e meio depois do crime, a construção nunca foi posta à venda.

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