Os alpinistas da árvore de Natal do Ibirapuera

Paulistânia, uma cidade e sua gente

EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

04 Dezembro 2011 | 03h04

"Está vendo essa árvore grandona de Natal? Foi meu pai que montou!" Quando o pequeno Gustavo, de 9 anos, diz isso, não está se referindo aos enfeites da sala de sua casa, como fazem todos os seus coleguinhas nesta época do ano. A árvore que seu pai montou tem 58 metros de altura - só a estrela mede 8 metros! - , é a mais famosa de São Paulo e terá a versão 2011 inaugurada na noite de hoje. Gustavo é o mais velho dos seis filhos de Wellington de Sousa, de 30 anos, um dos 22 alpinistas da tradicional árvore de Natal do Ibirapuera.

"A de casa ainda não tive tempo de montar, mas vou fazer com meus filhos", confessa Wellington, entre tímido e orgulhoso. "É que nos últimos dias tive muito trabalho." É verdade. Horas extras foram comuns na rotina dos cerca de 200 operários envolvidos na montagem da árvore. Entre 7 de novembro e ontem, eles tiveram de fazer serviços que vão de apertar parafusos a pendurar enfeites - o maior deles pesa 26 quilos - em uma rotina afobada, mas organizada. Divididos por turnos, havia gente trabalhando 24 horas no local, pertinho do Parque do Ibirapuera, na Avenida Pedro Álvares Cabral.

A correria só era interrompida quando chovia. Por razões de segurança, ninguém ficava na montagem da árvore enquanto as gotas não parassem de cair. "É questão de segurança. Nem dinheiro nem Papai Noel podem estar acima da vida", sentencia Agomar Ferreira, de 40 anos, há 16 alpinista profissional - ou "profissional de acesso por corda", como eles dizem tecnicamente.

Estresse. Mas para a rotina desses profissionais habituados a complicados trabalhos nas alturas - manutenção de torres de alta tensão, inspeção de arranha-céus, vistoria em pontes... - montar a árvore de Natal é tão fácil quanto ganhar doce do bom velhinho. "É o trabalho mais tranquilo do ano", comenta Agomar. "Perrengue mesmo em nosso dia a dia é quando estamos no alto de um prédio e vem uma rajada de vento... Já cheguei a me afastar 5 ou 6 metros da parede, aí dá um medinho", admite Adérito da Costa Neto, de 27 anos, alpinista há 11. "Aqui na árvore não aconteceu nada disso."

Mesmo com tanta facilidade, os alpinistas da árvore confessam certo estresse. "Quero mais é acabar com o Papai Noel", diz Adérito. "É isso mesmo. Aqui na montagem todo mundo está querendo esfolar o velho", completa Agomar. "Mas, quando a gente vê de longe a árvore quase pronta, assim, bonita, não dá para negar: a sensação é muito boa." Na quinta-feira, quando conversaram com a reportagem do Estado, dever praticamente cumprido, eles já estavam em clima de comemoração. A promessa é de que todos que trabalharam no projeto terão uma festa.

Boa parte dos alpinistas industriais começou na aventura por lazer. "Venho do esporte. Mas era só gastar, gastar, gastar. Aí decidi ganhar dinheiro com o que eu sabia fazer", conta Agomar. Para se tornar profissional, é preciso fazer um curso de formação. Há três níveis (1, 2 e 3) e cada um deles leva cerca de duas semanas. As escolas técnicas precisam ser credenciadas pela Irata (sigla em inglês para Associação dos Profissionais de Acesso por Corda), órgão que norteia a atividade. Varia conforme a experiência, mas, em geral, um alpinista industrial recebe de R$ 3 mil a R$ 4 mil mensais.

Apesar de a montagem no Ibirapuera só ter começado no mês passado, o planejamento da versão 2011 da árvore vem do início do ano. Em junho, a empresa contratada para a montagem já participava de reuniões com o banco patrocinador e a Prefeitura, promotora da atração. Os números impressionam: são 58 metros de altura, 28 metros de diâmetro, 35 toneladas de alumínio, 80 toneladas de lastro para a fixação da estrutura. A iluminação é garantida por 500 lâmpadas e 12 mil metros de mangueiras de LED.

Diante de tantos algarismos, um método simples: o passo a passo. "Montar a árvore é como subir uma montanha. Precisamos ir vencendo por etapas", compara Charles Becker, de 30 anos, proprietário da empresa de "profissionais de acesso por corda" que executou o trabalho. Ele também é alpinista, tem a firma há cinco anos e esta foi a primeira vez que acabou contratado para montar a árvore. Aos 7 anos, Maria Fernanda, sua filha única, compartilha o mesmo orgulho de Gustavo, o garotinho do começo desta reportagem. "Ela está encantada. Diz para todo mundo que a árvore do Ibirapuera está sendo montada pelo 'pai aventureiro' dela", comenta, com um sorriso cheio de si.

Eles passaram um mês apertando parafusos e pendurando enfeites em um dos símbolos do fim de ano na cidade

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