Órgão mais moderno do País será ouvido no Rio

Instrumento terá 4 mil tubos e vai custar R$ 1,9 milhão; ele ficará na Antiga Sé, cenário de coroações e casamentos da Família Real

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

23 Julho 2012 | 03h04

Cenário das coroações de d. João VI, de d. Pedro I e de d. Pedro II e de todos os casamentos e batizados da Família Imperial em solo brasileiro, catedral do Rio de 1808 a 1976 e ainda casa de nossos principais compositores sacros. Restaurada em 2007, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, ou Antiga Sé, no centro da cidade, vai ganhar um órgão à altura de seu instrumento original, cujo som foi ouvido em todas essas ocasiões históricas.

Do órgão de tubos português que aparece em quadros como a Sagração de D. Pedro I, de Debret, e que foi usado pelo Padre José Maurício Nunes Garcia, compositor sacro considerado o maior de todos, só sobrou a moldura. No segundo andar do prédio está sendo construído um novinho, prometido para ser o mais moderno da América Latina.

Vai custar R$ 1,9 milhão ao BNDES, que já bancara parte do restauro completo do templo católico em estilo rococó, a R$ 11 milhões. Desde a reabertura, em 2008, durante os festejos pelo bicentenário da chegada da Corte Real portuguesa ao Brasil, a Antiga Sé é uma das igrejas mais disputadas pelos cariocas para cerimônias de casamento.

Gigante. Pense em uma obra de engenharia. Uma equipe de cinco pessoas trabalha de segunda a sexta, oito horas por dia, para construir quatro mil tubos de madeira e metal (nos quais é produzido o som), foles revestidos de pele de carneiro e enormes caixas de madeiras nobres (cedro, mogno, freijó) para abrigar tudo isso.

O órgão, cuja estrutura, de 7 metros de altura, pesará 15 toneladas quando pronta, ficará no coro da igreja, sobre a entrada. Mas o organista poderá ser acompanhado pelos fiéis em qualquer outro ponto da nave, graças ao advento de um consolo móvel (peça onde ficam teclados e pedais). A transmissão de dados dos teclados para os tubos será eletrônica.

O trabalho começou há um ano. À frente, está o organeiro francês Daniel Birouste. Ele foi escolhido pela Associação de Amigos da Antiga Sé (Samas) por seu expertise: já construiu modelos semelhantes em igrejas e casas de espetáculos da França, Espanha, Suíça e Argentina, 23 no total, em 30 anos de profissão. Estudou cerca de 15 para ter o título de mestre organeiro, tradicional em um país que conta pelo menos dez mil órgãos de grandes dimensões.

Agora, transmite as técnicas da organologia a dois franceses e dois brasileiros, marceneiros e músicos, seus aprendizes. Em setembro, chegam mais quatro funcionários. A intenção é inaugurar em julho de 2013, coincidindo com a Jornada Mundial da Juventude no Rio, que terá a participação do papa Bento XVI.

"Não queríamos comprar o instrumento na Europa e trasladá-lo, mas transferir essa tecnologia para cá. Existem órgãos de tubos no Brasil, mas não temos a tradição de recuperá-los", explica o maestro Ricardo Tacuchian, coordenador musical da Samas.

Cupins e incêndio. O órgão de tubos não era ouvido desde os anos 1920. Foi quando se aposentou o modelo alemão que substituiu o original, este montado por um organeiro português trazido por d. João VI. Estava comido pelos cupins e prejudicado por um incêndio que lhe destruiu algumas partes.

Não houve quem desse jeito. Desde então, a música vinha de órgãos pequenos, quebra-galhos. "Estamos trazendo esse ofício de volta ao Rio. O último organeiro daqui foi (o alemão) Guilherme Berner, que morreu nos anos 50. Ele construiu órgãos para o Outeiro da Glória e o Mosteiro de São Bento", disse Birouste. Os dois órgãos citados estão em funcionamento, mas não chegam perto do que será o monumental órgão da Antiga Sé.

A acústica da igreja é considerada por especialistas perfeita para concertos. Uma programação cultural paralela à religiosa será desenhada, e não deverá contemplar só música sacra.

Em abril, depois de dois anos de restauro, o órgão de 6 mil tubos da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o maior do Rio e quinto do País, foi reinaugurado. Construído na Itália pela G. Tamburini, fábrica responsável pelo instrumento do Vaticano, o órgão foi inaugurado em 1954. Típico de igrejas, é o único em atividade em uma sala de recitais - o Teatro Municipal de São Paulo tem um da mesma marca, mas que está abandonado.

O trabalho de restauro coube à Família Rigatto, de São Paulo, que mantém uma relação com o instrumento de mais de 40 anos. O patriarca José Carlos Rigatto o restaurou em 1968 e manteve-o ao longo de 20 anos. Mas, antes da última reforma, o instrumento já estava com ninhos de cupim, tubos amassados e danos causados por infiltrações. A recuperação custou, cerca de R$ 1 milhão.

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