O samba que nasceu no meio do mato

Na pequena Quadra, 'sambeiros' e 'cantadores' preservam tradição caipira e viram curta-metragem

Edison Veiga, O Estado de S. Paulo

04 Abril 2009 | 22h24

Os instrumentos, todos de percussão, são feitos artesanalmente. Os músicos se autodenominam "sambeiros" e "cantadores". O ritmo é marcado pelo batuque de bumbos – que eles chamam de "caixas" –, pandeiros e reco-recos. Os versos, simples e espontâneos, são cantados como toadas. O sotaque é inconfundível – e, à primeira escutada, quase incompreensível para quem é de fora. O orgulho está nas letras: "Esse meu samba caipira/ Que nasceu lá no sertão/ Gravei o samba em DVD/ Não posso deixar morrer/ Nossa velha tradição."

 

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À frente desse resistente grupo está João José Andrade, de 65 anos, mais conhecido como João do Ditão. Ditão era o pai dele, com quem João aprendeu a ser "sambeiro". O pai de Ditão aprendeu com o avô que aprendeu com o bisavô. "Meu bisavô trabalhava em senzala e aprendeu com os escravos", conta.

 

Em sua turma tocam João Mendes de Góes – "tanto faz escrever com ‘e’ ou com ‘i’", diz ele –, de 71 anos, apelidado de Paçoca; Francisco Soares, o Preto, de 67 anos; Julieta de Andrade Soares, de 66; Francisco Dimas da Silveira, chamado de Chico Pinto, de 56 anos; e José Carlos Soares, também de 56. São Os Filhos da Quadra. "Desde 1964, quando ‘comecemo’, já ‘passou’ comigo uns 30, 40 cantadores", lembra João do Ditão, o veterano e professor do grupo.

 

Eles nasceram e sempre moraram em Quadra, uma pequena cidade de menos de 3 mil habitantes, localizada a cerca de 150 quilômetros da capital paulista. Era distrito de Tatuí – se emancipou em 1993. Integram um dos sete grupos de samba caipira que ainda existem no interior paulista, em cidades como Vinhedo, Mauá e Pirapora do Bom Jesus.

 

João do Ditão frequentou somente até a 3ª série de um colégio rural. Mas tem uma sabedoria inata, cabocla, matuta, cheia de poesia. "Quem quer aprender verso/ Procure o João do Ditão/ Versão de Samba caipira/ Que é a raiz do meu sertão." Garante que já compôs "mais de mil versos" – um verso, para ele, é uma música toda.

 

Seu método é assim: primeiramente, escreve num caderninho, depois repassa para Julieta, que é sua irmã, decorar. "Só então ensino a toada para ela", explica. Tudo muito simples. "Não gostamos de nada ‘luxento’", frisa Julieta.

 

Durante a visita ao grupo, a reportagem do Estado foi brindada com uma homenagem, ao estilo repentista: "Pra ouvir samba caipira/ Vem gente da capital/ Pra mim vem fazer visita/ O repórter da imprensa escrita / Pra pôr o samba no jornal."

 

Além de compor músicas para o grupo, João também escreve poemas. Não gosta de mostrá-los. "Troco as letras", se justifica. Talvez ele não faça ideia de que, em seu caso, substituir "ss" por "ç" e colocar um "z" onde caberia um "s" não têm o menor problema.

 

É o próprio João, carpinteiro de ofício, quem constrói os instrumentos. Tem um pandeiro, de couro de bode, que foi feito há 60 anos por seu pai, o Ditão. "Os (instrumentos) que vêm de fábrica saem fora do padrão", acredita. Essa originalidade corria risco de extinção, já que os jovens de Quadra não se interessavam muito pelo estilo. "Eles preferem coisas mais doidas", afirma Preto.

 

O filme

 

Foi quando o funcionário público Marcel Defensor Dias, do Departamento de Agricultura da prefeitura de Quadra, entrou na história. Ao saber que o cineasta Gustavo Mello havia feito uma série sobre samba de São Paulo, para a TV Cultura, decidiu ligar para ele. Contou sobre os "sambeiros" quadrenses. "Quadrados", corrige João, aos risos.

 

"Fui para lá com um antropólogo por três vezes, em 2007", lembra o cineasta. "Ficamos impressionados. Era uma coisa diferente dos demais grupos que conhecíamos." Ele bolou um documentário, inscreveu o roteiro no Prêmio Estímulo de Curta Metragem e conseguiu o financiamento de R$ 80 mil para rodá-lo, no ano passado.

 

Nos quatro primeiros meses de 2008, Mello e sua equipe – o filme é codirigido por Luiz Ferraz – passavam uma semana a cada 30 dias na cidade. "No começo, não conseguíamos nem entender o sotaque", admite o cineasta. "E eles eram bastante tímidos." Depois desse processo, todos ficaram mais à vontade para a gravação, ocorrida durante cinco dias no final de maio.

 

O filme Samba de Quadra – O Samba Que Veio do Mato estreou no Festival É Tudo Verdade – no Rio, dia 29 de março, e em São Paulo, no dia 2. As próximas exibições na capital paulista estão previstas para hoje, às 17h, no Centro Cultural Banco do Brasil; e dia 16, às 12h, na Casa das Rosas. Na primeira sessão paulistana, no dia 2, os "sambeiros" vieram em caravana ao CineSesc. "Só assistimos ao filme e ‘vortemo’ embora", afirma João. "São Paulo é muito grande, a gente se perde e periga ficar."

 

Não deixe o samba morrer

 

O facho de luz que o cinema lançou sobre a música típica de Quadra tem funcionado como uma garantia de que o estilo não vai mais desaparecer. "Meus netos não se interessavam, mas agora estão aprendendo", diz Julieta. É verdade. Sabrina, de 12 anos, já canta com a avó – embora ainda não consiga disfarçar a timidez. Gabriel, aos 8, leva jeito no reco-reco. Simbolizam a esperança de que a tradição centenária, cuja origem ninguém explica ao certo, não está condenada à extinção.

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