O Rio precisa de um plano de risco que permita ação preventiva e emergencial

ENTREVISTA

Valéria França, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2010 | 00h00

Kazuo Nakano, urbanista DO INSTITUTO PÓLIS

Há como evitar ou minimizar os danos causados pelas enchentes?

Claro que sim. Mas para isso é preciso ter um plano de risco atualizado. E ele serve tanto para uma ação preventiva como emergencial. Um dos problemas de grandes cidades, como Rio e São Paulo, é a forma de ocupação territorial desordenada. Encostas de morro e várzeas de rios são áreas de risco densamente povoadas.

No Rio, a maioria das favelas está nas encostas de morros e não nas várzeas, como em São Paulo. É possível uma forma de ocupação segura ali?

Há várias técnicas que podem promover a moradia segura nestas regiões. Além da construção de muros de arrimo para a contenção de encostas, compressão do solo, implantação estacas e evitar certas plantações são alguns dos recursos possíveis. Por exemplo, pé de bananeira, muito comum em morro, acumula água no tronco e nas raízes, que não são profundas. Quando chove, ela cai fácil e carrega boa quantidade de terra. Um plano de risco não só mapeia os locais como traça o perfil da população destas regiões. A faixa etária e o nível socioeconômico dos morados podem potencializar o grau de fragilidade destas locais, exigindo que as ações sejam mais rápidas e contundentes do que em outros.

Mesmo sem investimento prévio, é possível minimizar os estragos com um plano emergencial mais efetivo?

Sim, mas é preciso assim mesmo ter um plano de risco atualizado. Rio e São Paulo não têm. Ele pode evitar a tragédia. Há algum tempo, Santos tinha um bom plano. Quando a previsão do tempo indicava chuvas fortes, brigadas da Defesa Civil eram enviadas para os locais de risco e agiam antes do pior acontecer. Mas estas equipes precisam ser preparadas. Precisam ter na cabeça as estratégias para retirar as pessoas de suas casas e saber para onde levá-las. Tudo tem de ser feito muito rápido. O problema é que no Brasil a cultura é agir depois que a tragédia aconteceu.

A Praça das Bandeiras, no centro, também alagou. O que fazer?

A Praça das Bandeiras, no Rio, foi construída sobre três rios. Dependendo da quantidade de água, não há sistema de drenagem que funcione. Seul e Boston desenterraram alguns rios. Não tinha jeito. Em São Paulo, o Rio Tamanduateí, sob a Avenida do Estado, que alaga, recebe toda a água do Grande ABC. É preciso entender que uma cidade é muito mais que um sistema de vias carroçáveis.

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