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O peso da tecnologia

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Jairo Bouer

Você pode avaliar o impacto que uma TV, um computador e um carro podem ter na vida e na saúde da sua família? Um novo estudo, divulgado na última semana pela agência de notícias AFP, realizado pela Universidade Simon Fraser, do Canadá, mostrou que essas comodidades da vida moderna aumentam muito o risco de obesidade, principalmente nos países em desenvolvimento, em que parcelas significativas da população melhoraram sua condição econômica e passaram a adquirir esses bens de consumo recentemente (como é o caso do Brasil da última década).

A pesquisa, feita com mais de 150 mil pessoas, em 17 países, mostrou uma relação direta entre esses itens de consumo, maior sedentarismo e risco aumentado de obesidade e doenças dela decorrentes (como diabete e hipertensão). A taxa de obesidade nos países em desenvolvimento pula de 3,4% entre os que não têm nenhuma dessas "máquinas" para 14,5% entre aqueles que têm as três.

Os proprietários dos três equipamentos são 30% menos ativos, permanecem sentados 20% a mais de tempo e têm, em média, 9 centímetros a mais na circunferência abdominal do que os que não têm nenhum dos três. Quanto mais tempo permanecem sentados, mais alimentos calóricos são ingeridos, menos disposição eles têm para se engajar em atividades físicas e, como consequência, mais quilos se acumulam em seus corpos.

Outro curioso estudo, mais antigo, traz mais um dado interessante. Ele afirma que, a cada controle remoto ou botão automatizado que se coloca na vida cotidiana, há um risco de se ganhar um quilo a mais de peso por ano.

Esse padrão de aumento de peso e obesidade ligado ao acúmulo de tecnologias da vida moderna não é exatamente uma novidade nos países desenvolvidos, em que a maior parte da população já tem acesso a esses bens de consumo. Não é à toa que, por exemplo, ingleses, americanos e canadenses lutam contra essa verdadeira "epidemia" de obesidade há décadas. A novidade é a migração desse padrão para países em desenvolvimento, o que pode onerar ainda mais sistemas combalidos de saúde pública, que já enfrentam tantas limitações de orçamento.

Outra questão que chama cada vez mais a atenção nesses países é o crescimento de outros hábitos nocivos à saúde, como o aumento do tabagismo. Enquanto no mundo ocidental desenvolvido as campanhas de advertência, a elevação dos impostos sobre o cigarro e a restrição de locais de consumo estão conseguindo derrubar o número de fumantes, no mundo em desenvolvimento, nas populações mais carentes, essas taxas só crescem. Maior renda, sem acesso à informação sobre riscos do tabaco e da obesidade, tem contribuído para um aumento da morbidade e mortalidade por doenças cardíacas, acidente vascular cerebral (derrame) e vários tipos de câncer.

Outro grande trabalho, divulgado na última semana pelo jornal inglês Daily Mail, realizado pela University College of London (UCL), que entrevistou mais de 22 mil adultos, mostrou que, pela primeira vez em décadas, menos de um a cada cinco britânicos está fumando. É a menor taxa em mais de 80 anos. Na década de 1960, mais de 70% dos homens e 40% das mulheres fumavam no Reino Unido. Os novos números animaram os políticos a avançar em medidas contra o cigarro. Há uma proposta, em debate na Câmara, de banir o cigarro de carros particulares em que crianças estejam sendo transportadas. Além disso, avança a discussão das embalagens genéricas de cigarros (sem marcas estampadas) no país, a exemplo do que ocorre na Austrália.

No Brasil, também houve redução importante do número de fumantes nas últimas décadas. Dados da pesquisa Vigitel, de 2013, apontam que há 12% de fumantes adultos por aqui. Na década de 1980, a taxa era de mais de 30%. Mas outro estudo, divulgado no final do ano pela Fiocruz, mostrou que essa queda é menos importante na camada da população menos escolarizada e de baixa renda, a mesma que tem se revelado mais propensa ao ganho de peso e aos maiores índices de obesidade. Moral da história: foco urgente na informação e na educação para hábitos saudáveis nesse grupo.

É PSIQUIATRA

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