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O palacete de dona Veridiana

José de Souza Martins, josedesouza.martins@grupoestado.com.br - O Estado de S.Paulo

16 Agosto 2010 | 00h 00

Muito boa a notícia de que o palacete em que viveu dona Veridiana Valéria da Silva Prado, na Avenida Higienópolis, será aberto à visitação pública. Poderemos, então, conferir a impressão que a princesa Isabel teve, quando o visitou em 1884, e registrou em seu diário: "Um dos tetos pintados por Almeida Jr. e representando o sono, ou antes, um não sei quem cochilando, deixa a desejar como obra dele que deveria ser coisa melhor", como a cita Maria Cecília Naclério Homem, em seu precioso O Palacete Paulistano. Naquele mesmo ano, o grande pintor ituano havia recebido do Império a Ordem da Rosa. Coisas de quem tem poder.

Aquele é um belo remanescente das antigas residências da aristocracia do café. É um documento arquitetônico do tempo do esplendor dos saraus cultos e da sociabilidade reclusa da elite paulista. Gosto de espiá-lo pelas frestas da cerca que o esconde para adivinhar o que de nossa história àquela casa comparecia e por ela passava. Dona Veridiana, de família influente, foi uma das mulheres mais representativas do Brasil de sua época. Por imposição paterna, aos 13 anos de idade casou-se com o próprio tio. Deu ao País uma família que se destacaria na economia, na política e na inovação social e cultural. A atuação de seu filho Antônio Prado foi decisiva para o fim da escravidão e para a política de imigração estrangeira.

Com os filhos já adultos, Veridiana despachou o tio-marido para uma das fazendas da família e dele se separou. Fez construir então o palacete da Vila Buarque. Ali, criou um estilo de vida que celebrava a multiculturalidade brasileira. Sua ama de companhia era uma jovem negra, que sabia francês e era pianista. O mordomo era um índio botocudo. Tinha por cocheiro um suíço, que nos fins de tarde a levava a passear de coche pela atual Avenida Higienópolis.

Foi o bastante para que ela se tornasse vítima da língua das matronas de São Paulo. A maledicência chegou aos seus ouvidos. Teria, então, decidido que seu palacete ficaria para um clube masculino, do tipo dos clubes exclusivos ingleses, sendo nele vedado o acesso de mulheres. Isso é pura fantasia. Mas o palacete é um lugar da lenda que a fabulação popular criou para situar e compreender o modo de vida tão peculiar dos que a fortuna distanciara da vida comum dos demais moradores da cidade. O que os olhos não podiam ver, a imaginação inventava.

A maldade da lenda vingativa é forte e persistente. Não faz muito tempo, lá participei, no pavilhão anexo à casa, de um coquetel oferecido pela Editora Paz e Terra ao numeroso grupo de autoras e autores de sua História da Cidade de São Paulo. Perguntei, então, a conhecido escritor paulista se a suposta interdição do prédio a mulheres havia caído. Respondeu-me com malicioso sorriso: "É lenda. Mas aqui era a cocheira..."

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