O mito dos Stradivarius

Criar uma lista contendo meia dúzia de artefatos antigos superiores aos atuais é difícil. Mas, se você for um amante da música clássica, vai se lembrar dos famosos violinos produzidos nos séculos 17 e 18 por Antonio Stradivari e Guarnieri "del Gesu". A grande maioria dos solistas acredita que esses instrumentos são melhores. Sonham em tocar com um deles, e compram essas raridades por pequenas fortunas. A audiência se deslumbra com o som desses instrumentos.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

12 Abril 2014 | 02h06

Essa unanimidade fez surgir um novo campo de investigação científica: descobrir a razão da superioridade dos instrumentos produzidos pelos grandes mestres. São dúzias de trabalhos científicos, analisando a madeira do instrumento, seu tratamento, o verniz que o recobre (veja o filme O Violino Vermelho), o formato, o som emitido e suas inúmeras características. E nada. Continuamos sem saber por que esses instrumentos são melhores que os atuais. Mas será que os violinos antigos são realmente melhores?

Para testar essa hipótese, nada melhor que o chamado "teste cego". Na década de 1980, uma propaganda da Pepsi-Cola oferecia dois copos a fanáticos por Coca-Cola. Pedia que escolhessem o copo que continha sua bebida preferida. A propaganda alardeava na TV o resultado de seu "teste cego": Nove entre dez fãs de Coca-Cola preferem Pepsi. Foi um bafafá.

Um grupo de experts em violinos resolveu fazer um teste semelhante. Recrutaram dez solistas, violinistas profissionais respeitados, e propuseram um desafio. Eles teriam de escolher, entre 12 violinos, aquele que utilizariam nos seus próximos concertos, avaliando somente o som dos instrumentos. Cada um dos concertistas ficou com os 12 violinos por 75 minutos em uma sala de ensaio e, depois, teve a oportunidade de refazer os testes em uma sala de 300 lugares, considerada uma das melhores da Europa.

Entre os 12 violinos apresentados aos solistas estavam 6 antigos (sendo 5 Stradivarius) e 6 violinos recentes, fabricados pelos melhores artesãos americanos e europeus (um violino desses custa entre US$ 50 mil e US$ 100 mil). Para impedir que os solistas examinassem os violinos visualmente, eles usaram óculos muito escuros e as salas foram mantidas com muito pouca luz.

Os resultados foram surpreendentes. Seis dos dez solistas escolheram violinos modernos como o melhor. Um dos violinos recentes foi, de longe, considerado o melhor, seguido de perto por outro dos novos. Dois dos violinos antigos ocuparam a terceira e quarta colocação. Além disso, os violinos foram classificados quanto à sua articulação, timbre, facilidade de manuseio, projeção e intensidade do som. Os recentes venceram. Finalmente foi solicitado aos solistas que estimassem a idade dos violinos. Os novos foram classificados como antigos.

O estudo demonstra o poder de um teste cego. Se for bem desenhado, é capaz de eliminar os efeitos indutivos da propaganda sobre as escolhas humanas, fazendo valer somente o que nossos sentidos nos informam. Esse estudo é também um bom exemplo de como muitas vezes, para solucionar um problema, é necessário antes verificar a validade das premissas.

Conclusão. Os solistas preferem instrumentos antigos influenciados pelo mito de que eles são superiores. Quando essa influência é removida, a superioridade dos instrumentos modernos fica evidente.

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

MAIS INFORMAÇÕES: SOLOIST EVALUATIONS OF SIX OLD ITALIAN AND SIX NEW VIOLINS. PROC. NAT. ACAD. SCI. DOI/10.1073/PNAS.1323367111 2014

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