Leonardo Soares/AE-10/8/2011
Leonardo Soares/AE-10/8/2011

O leiteiro que ainda vai de porta em porta

Costume secular se mantém com entregas de madrugada em ruas de Moema e do Morumbi

Márcio Pinho, O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2011 | 03h03

Garrafas de leite entregues durante as madrugadas e manhãs em casas de São Paulo não formam um cenário exclusivo de meados do século 20, quando leiteiros passavam de rua em rua com suas carroças puxadas por cavalo para garantir o café da manhã das famílias. A profissão ainda persiste, sustentada por profissionais que apostam na tradição e por consumidores que preferem o leite pasteurizado no domicílio ao de caixinha do supermercado.

Em bairros como Moema e Morumbi, continuam sendo usados, ao lado das caixas de correio, compartimentos para depositar o leite. E as chaves ficam com o leiteiro, geralmente um conhecido de longa data das famílias.

Um molho com 45 delas acompanha Sebastião Nunes, de 56 anos, nas madrugadas do Morumbi. Ele está há 30 anos na função e a considera gratificante. "Gosto de ver o dia nascer e as pessoas saindo de casa. É como tomar café da manhã com elas", diz, comemorando o fato de ser lembrado pelos clientes nos aniversários.

Três vezes por semana, Nunes vai à central de distribuição da marca Xandô em São Paulo, no Butantã, zona oeste, e carrega seu veículo com 215 garrafas. O processo é semelhante ao dos antigos leiteiros, mas a forma de distribuição evoluiu. Em vez de carroça, Nunes usa um Fiat Uno, que não poderia ser de outra cor que não branca. Os bancos de trás foram retirados e a parte interna ganhou revestimento térmico para que o leite chegue a seu destino com uma temperatura de 9°C. Um jaleco azul usado pelo leiteiro completa a apresentação.

As garrafas plásticas são uma saída prática para armazenar o leite. Bem diferentes das leiteiras usadas pelas famílias na década de 1940. Moradores saíam às ruas e formavam filas para encher seus recipientes com o leite que era trazido em tanques. Depois, garrafas de vidro eram distribuídas e trocadas por outras vazias.

Viagem. À meia-noite, o Uno branco faz suas primeiras curvas no sinuoso Jardim Guedala, no Morumbi. O desafio é fazer mais de 100 entregas até as 5h ou 6h. Em cada parada, Sebastião abre com rapidez uma portinhola semelhante a um carrinho de sorte instalada na lateral do veículo para retirar as garrafas. Se abrisse o porta-malas, o microclima frio se perderia.

Em todas as jornadas, o contato maior do leiteiro é com os trabalhadores da noite, especialmente seguranças e porteiros de prédio, responsáveis por guardar o produto - os edifícios onde há clientes costumam ter geladeiras nas portarias. Nas casas, o leite é colocado no espaço reservado para ele ou então entre as grades do portão. Empregadas saem para recolhê-lo.

A dificuldade de contato com parte dos clientes ajuda a explicar o fato de a profissão de leiteiro não viver mais seu auge. A insegurança fez moradores não se disporem mais a ter um entregador diariamente em suas portas. Atualmente, até o pagamento é feito sem o contato com o cliente, por meio de boletos colocados pelo leiteiro na caixa do correio.

Com esses e outros obstáculos pelo caminho, Nunes diz considerar o retorno financeiro da profissão baixo e as perspectivas não muito animadoras. "Eu já tive um caminhão e empregados. Fazia quatro ou cinco vezes mais entregas quando comecei, nos anos 80", lamenta.

Mercado. Mas o leite pasteurizado e as entregas domiciliares ainda têm bastante mercado, contudo, segundo o gerente-geral da Xandô, Daniel Teixeira de Figueiredo. Ele cita São José do Rio Preto, no interior do Estado de SP, como exemplo - são 10 mil clientes cadastrados para entregas domiciliares.

Em São Paulo, a negativa de moradores em passar dados como número de telefone, por receio com a questão da segurança, dificulta o levantamento. Daniel garante, contudo, que entre os clientes estão não apenas pessoas que optam pelo leite pasteurizado por considerá-lo saudável, mas também os que herdam a tradição de seus pais de comprar ou receber o leite em casa.

O leite pasteurizado é considerado pelos fabricantes como "leite vivo". Ele passa por um processo inventado no século 19 pelo cientista francês Louis Pasteur, que consiste em matar bactérias patogênicas presentes no leite da vaca e manter aquelas saudáveis ao organismo humano. É o caso dos lactobacilos, benéficos para a flora intestinal.

Isso torna o leite pasteurizado mais perecível do que o longa vida, que passa por outro processo, que elimina as bactérias que deterioram o produto, permitindo o armazenamento por meses. Substâncias como o cálcio permanecem.

A facilidade trazida pela produção do longa vida ajudou o produto a estar em 85% dos lares brasileiros, segundo a Associação Brasileira do Leite Longa Vida.

 

PARA ENTENDER

'Leite vivo' data do século 19 

O leite pasteurizado é considerado pelos fabricantes como "leite vivo". Ele passa por um processo inventado no século 19 pelo cientista francês Louis Pasteur, que consiste em matar bactérias patogênicas presentes no leite da vaca e manter aquelas saudáveis ao organismo humano. É o caso dos lactobacilos, benéficos para a flora intestinal.

Isso torna o leite pasteurizado mais perecível do que o longa vida, que passa por outro processo, que elimina as bactérias que deterioram o produto, permitindo o armazenamento por meses. Substâncias como o cálcio permanecem.

A facilidade trazida pela produção do longa vida ajudou o produto a estar em 85% dos lares brasileiros, segundo a Associação Brasileira do Leite Longa Vida.

 

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