O ex-PM da Rota que voltou a executar travestis após 18 anos

Suspeito de assassinar rapaz durante programa, Cirineu Letang Silva havia acabado de deixar prisão, pelo mesmo crime

WILLIAM CARDOSO, O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2011 | 03h02

Soldado da Rota, de 29 anos, integrante do grupo que participou do massacre do Carandiru e matador de travestis, condenado a 40 anos de prisão. Dezoito anos depois, ex-detento, beneficiado com o direito de cumprir a pena em regime aberto pelo comportamento exemplar atrás das grades, sem passar, porém, por exame criminológico.

São fragmentos do passado e presente de Cirineu Carlos Letang Silva, solto em 16 de março e que, 71 dias depois, teria matado Alison Pereira Cabral dos Anjos, de 23 anos. Também travesti. Segundo a polícia, promotoria e especialistas, é um serial killer. E, por isso, foi preso novamente na terça-feira.

Era noite de 12 de março de 1993, quando Cirineu deixou o quartel da Rota, na Avenida Tiradentes, na região central de São Paulo, e seguiu para a Barra Funda, na zona oeste. Passeou com seu Fusca branco por ruas próximas da Avenida Ermano Marchetti, até hoje ponto de prostituição masculina. Matou com tiros nos olhos as travestis José Wilson da Silva, de 30 anos, e os irmãos Jaime, de 24, e Reginaldo Félix da Silva, de 22. O último teve o pênis decepado e colocado na boca.

Nesta semana, o delegado Carlos Alberto Ferreira Sato também voltou 18 anos no tempo. Ele lembra das 48 horas posteriores ao crime em 1993. "Levantamos todas as informações e, depois, fomos peneirando as mais relevantes." Na época, Sato era um jovem plantonista do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Hoje ele não tem dúvida: Cirineu é um matador em série.

Indícios. Entre os detalhes coletados pela equipe de Sato estava a placa do carro de Cirineu, anotada por outras travestis. Posteriormente, ele foi reconhecido por amigos das vítimas, o que colaborou na condenação. Pesou também o fato de Cirineu ter contado aos jurados que passou pelo local do crime naquela noite. Ele disse que parou para urinar em uma rua próxima.

Nos anos 90, Cirineu foi acusado pela morte de pelo menos outras cinco travestis. Em um dos casos, no Ipiranga, zona sul, a polícia chegou à conclusão de que a bala do crime saiu da arma usada em serviço pelo então PM.

Retorno. Segundo a polícia, em 26 de maio deste ano, o matador voltou a atuar. Novamente na Barra Funda. Cirineu teria pago um programa de R$ 40 com uma nota de R$ 50. Alison, conhecido como Camila Close, não teria troco. Levou um tiro de revólver calibre 38. O assassino fugiu em uma moto Twister vermelha.

Quando o caso chegou ao DHPP, o nome de Cirineu foi cogitado. Porém, para os policiais, ele ainda estava cumprindo sua longa pena. Foi com surpresa que descobriram que o ex-PM havia acabado de deixar a prisão.

Foram a campo em busca de testemunhas. Outras duas travestis reconheceram Cirineu, bem como a jaqueta e o capacete que usava na hora do crime. Uma delas chegou a passar mal quando viu o matador. Disseram também à polícia que ele era frequentador do local.

Na segunda, o promotor José Carlos Cosenzo denunciou o ex-PM pela morte de Alison. "Vou pedir os exames necessários, até para verificar a agressividade e, principalmente, a periculosidade dele. Ele é um serial que interrompeu o 'trabalho' enquanto esteve preso. Se for condenado novamente, com 10 anos estará na rua. E, se estiver na rua, ele mata mesmo", disse. Cosenzo pretende apurar assassinatos recentes de travestis para saber se estão relacionados com o ex-PM.

Quando recebeu os policiais que o levariam para a prisão, na madrugada de terça-feira, Cirineu demonstrou serenidade incompatível com o momento. Ele nega as acusações. Não assume nem mesmo as mortes pelas quais já foi condenado.

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