O dia em que a cidade parou

Relatos de quem passou horas na rua sem conseguir chegar em casa,testemunhou deslizamentos e ficou isolado no Aeroporto Santos Dumont causando horas de espera e até a madrugada na rua

, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2010 | 00h00

Não foi preciso viver em áreas de risco para sentir as dificuldades e tragédias causadas pelo temporal que atingiu o Rio. A chuva afetou não só quem vive no morro, mas também todos que iam para trabalho ou para casa, de transporte público ou avião.

CARRO ARRASTADO

Torben Grael salva mulher e criança

Na madrugada de terça, o iatista Torben Grael foi surpreendido por um deslizamento de terra que arrastou um carro para sua casa no bairro de São Francisco, em Niterói. O motorista ficou soterrado e morreu. A mulher dele e uma criança foram resgatados por Torben e pelo irmão dele, Axel. "Eles estavam dentro do carro na rua na parte de cima do morro, atolaram na lama e, com a pressão das pedras, foram empurrados morro abaixo para dentro da minha casa. Parte de um muro de contenção da parte de cima do morro desceu."

Parte da garagem de Torben desabou e os dois carros do iatista foram danificados. Por horas, Torben e Axel tentaram entrar em contato com a Defesa Civil do município para que as equipes de socorro tentassem resgatar o homem, mas não conseguiram. Segundo o iatista, o corpo do rapaz foi retirado à tarde.

TRANSTORNO

Voltar para casa se torna uma "aventura"

Com o colapso no sistema de transportes da cidade, houve quem desistisse de voltar para casa para não enfrentar o caos. Quem insistiu passou por testes de paciência e resistência física. Silvio Moreira Santos, de 46 anos, deixou o Theatro Municipal, no centro, às 19h30 e só chegou em casa, na Vila da Penha, zona norte, às 3h30. "Foi uma aventura desesperadora, inconcebível", contou. "Quando saio do trabalho nesse horário, costumo levar 50 minutos para chegar em casa. Desta vez, fiquei mais de uma hora esperando um ônibus, caminhei por ruas alagadas, voltei, tentei pegar o metrô e desisti duas vezes."

Na madrugada, depois de muita espera, conseguiu pegar um ônibus e finalmente chegou ao seu destino. Mas Silvio não dormiu: ficou em contato constante com a noiva, Fabiane, que estava ilhada, desde a noite de segunda, na Tijuca, zona norte da cidade. "Ela só chegou à casa dela, no Catete (zona sul) às 11h30."

AO TRABALHO

Ao atravessar a cidade, a tensão se acumula

Já perto de chegar ao trabalho, quatro horas depois de ter saído de casa, a empregada doméstica Luzia Nascimento ainda estava tensa. Na zona sul, as ruas não estavam mais alagadas, mas ela ainda se lembrava do que vira no caminho entre Campo Grande, na zona oeste, e Leblon. "O ônibus não pôde pegar o caminho normal e porque vi as pessoas estavam com a água na altura da cintura. Presenciei coisas que só tinha visto na TV."

Pelo telefone, ela dava notícias para a patroa. "Minhas irmãs viram confusões nas estações de trem e soube que muita gente morreu. Como pode uma coisa dessas?"

DIA DE DESCANSO

Vendedora é recrutada para trabalhar na folga

Ao contrário de muitos moradores do Rio - dispensados do trabalho -, Edileuza Andrade, de 29 anos, foi recrutada pela chefe para trabalhar. "Era a minha folga, mas tenho de cobrir faltas dos colegas", contou a vendedora de uma loja no Shopping Nova América, na zona norte.

Moradora do Complexo do Alemão, Edileuza foi lembrada pela gerente porque mora próximo ao shopping. "Dei azar. O problema é que, mesmo perto, estou tendo dificuldades em conseguir um van ou uma Kombi que esteja circulando."

SEM VOOS

Paralamas do Sucesso cancelam viagem a SP

A chuva impediu que os Paralamas do Sucesso viajassem para São Paulo para receber o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), no Sesc Pinheiros, ontem à noite. O grupo iria embarcar no Aeroporto Santos Dumont às 15 horas de ontem, mas desistiu quando soube que voos marcados para a manhã não haviam partido. Até o início da noite, 60% das decolagens tinham sido canceladas.

Morador de Santa Teresa, o baixista Bi Ribeiro ficou sem luz e foi com a mulher e os dois filhos para um hotel em Botafogo. Da janela, viu um desmoronamento na encosta ao lado. "Foi o pior estrago que vi. Há um mês a piscina do vizinho veio abaixo por causa da chuva, ficamos sem luz e o trânsito foi interrompido. Mas desta vez foi terrível. Quase chorei com o desmoronamento, era um lugar muito bonito", conta Ribeiro.

SEM TÁXI

No aeroporto, volta do feriado é tumultuada

Após passar o feriado sob o sol de Punta del Este, no Uruguai, Alexandre e Cláudia Petroni desembarcaram no Aeroporto Internacional Tom Jobim diante de um temporal que quase isolou o terminal de desembarque. Táxis comuns só passavam a cada 20 minutos, filas enormes se formaram e motoristas cobravam até R$ 300 para transportar passageiros até a Barra da Tijuca, na zona oeste - percurso que custa R$ 80.

O casal desembarcou no Rio às 21h20, mas só conseguiu deixar o aeroporto três horas depois. "Comprei com antecedência um voucher de uma cooperativa de rádio táxi, mas os motoristas escondiam as logomarcas para poder fazer lotações e cobrar um valor maior dos passageiros", denunciou o arquiteto.

CULTURA AMEAÇADA

Museus tentam salvar acervos valiosos

A diretora do Museu Internacional de Arte Naïf, Jacqueline Finkelstein, passou a noite de segunda-feira tentando salvar parte do acervo da instituição, molhado por causa de um vazamento no telhado. O prédio, no Cosme Velho, zona sul, é do século 19 e precisa de manutenção. Com o temporal, a reserva técnica foi invadida pela água, e várias telas de artistas do México, Haiti, Polônia e China foram danificadas. "A água estava quase nas prateleiras. Desde a inauguração do museu, em 1995, isso nunca havia acontecido." O museu tem a mais completa coleção do gênero do mundo: 6 mil telas de 120 países.

Maior museu de arte popular do País, a Casa do Pontal também foi afetada. A água invadiu a casa, no Recreio, zona oeste do Rio, e o acervo, formado majoritariamente por bonecos de barro e madeira, foi levado às pressas para o segundo andar. A diretora, Ângela Mascelani, disse que a situação é grave.

O acesso ao museu ficou difícil com o temporal - a área é de mata -, mas ainda assim funcionários foram ao local ontem, com água nos joelhos, para ajudar a salvar o acervo. O museu foi aberto ali há 34 anos e nunca havia passado por essa situação.

MARACANÃZINHO

Jogadoras de vôlei dormem na quadra

Atletas e comissão técnica do time de vôlei feminino do Unilever do Rio de Janeiro tiveram de dormir no Maracanãzinho, em colchonetes improvisados. A equipe jogaria ontem com o São Caetano, pela segunda partida da fase semifinal da SuperLiga, adiada pela Confederação Brasileira de Vôlei para amanhã.

"Percebemos que havia um grande alagamento e começamos a retirar a água com rodos. A princípio, achávamos que seria um cano estourado, porque a inundação chegou muito rápido e tomou conta da quadra", disse a líbero Fabi.

Mesmo com apelos para que ficassem no Maracanãzinho, quatro atletas preferiram tentar enfrentar as ruas alagadas. No entanto, Carol Gattaz, Carolzinha, Luísa e Camila Adão ficaram paradas várias horas num congestionamento na Tijuca.

PÓS-DILÚVIO

Quando a chuva passa, ruas esvaziam

Depois que a força da chuva diminuiu, por volta de 9h da manhã de ontem, o cenário da zona sul do Rio era semelhante ao de um feriado: trânsito livre, poucos ônibus nas ruas e muitas lojas fechadas. Apesar da recomendação de ficar em casa, algumas pessoas tentaram chegar ao trabalho. A assistente administrativa Camila Costa conseguiu, mas teve que voltar para casa logo depois. "Cheguei ao meu escritório, mas não havia ninguém lá. Nem os responsáveis pela abertura do prédio conseguiram chegar."

Moradora da Urca, na zona sul, Camila saiu mais cedo de casa e chegou sem atrasos ao escritório na Barra da Tijuca, zona oeste. Esperou por meia hora e decidiu pegar um ônibus de volta para casa. "No caminho, liguei para lá e alguém atendeu. Disse que havia estado lá e que tinha voltado. Eles entenderam. Se amanhã (hoje) voltar a chover assim, nem saio de casa."

DEPOIMENTO

Desespero e muita água

Roberta Pennafort

REPÓRTER DA SUCURSAL DO RIO DE "O ESTADO DE S. PAULO"

Saí da Praia de Botafogo rumo ao Jockey Club, na Gávea, às 20h10, para acompanhar o Prêmio Shell de Teatro. Por causa da chuva, o carro do jornal ficara preso num congestionamento no Leblon. Consegui um táxi e cheguei a 300 metros do Jockey pela Rua Mario Ribeiro. O carro não passava mais e segui andando. A água estava no joelho. Parei ao ver que mais adiante o nível atingiria a coxa. Convidados não chegaram para receber o prêmio. Encontrei nosso fotógrafo, a quem restou registrar o caos: gente desesperada e muita, muita água.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.