José Patrício/Estadão
José Patrício/Estadão

O culto ao corpo que vira risco de vida

Cirurgiões recomendam cautela na escolha de tratamentos estéticos e psicólogos veem nos exageros distúrbios a serem tratados

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2014 | 02h01

SÃO PAULO - A internação da apresentadora e modelo Andressa Urach, de 27 anos, que teve grave infecção após fazer a aplicação de 400 mililitros de hidrogel em cada coxa, reacendeu o debate sobre os limites entre cuidar da beleza e colocar a saúde em risco. Cirurgiões recomendam cautela na escolha dos procedimentos. Psicólogos veem nos exageros distúrbios relacionados à imagem, fazendo com que as pessoas tenham atitudes parecidas com as de pacientes que sofrem de anorexia ou bulimia.

O pivô da discussão foi o hidrogel, produto usado para a realização de preenchimentos faciais em quantidade de 1 a 2 ml, composto por água e um material semelhante ao plástico, que tem sido adotado por mulheres para alcançar rapidamente pernas torneadas e glúteos definidos.

Há um ano e meio, a estilista e blogueira Jennifer Pamplona, de 22 anos, colocou 70 ml de hidrogel em cada coxa. "Tenho uma prima que mora nos Estados Unidos, que fez aqui no Brasil. Vi o resultado e fiquei louca. Queria deixar minhas coxas mais firmes, mas não deu tanta diferença assim."

Jennifer relata que, oito meses após o procedimento, sentiu desconforto. "Depois que exagerei na malhação, senti dores. Hoje, malho três vezes por semana e pego bem menos carga. Também sentia dor quando usava muito salto alto, mas acho que isso é normal. Toda mulher sente." Ela diz que ficou preocupada ao ver o caso de Andressa. "Fiquei assustada, mas não penso em tirar, porque não está dando problema."

Depois de colocar próteses de silicone, fazer procedimentos estéticos nos lábios, usar hidrogel e aplicar botox, Jennifer afirma que parou com as intervenções estéticas. "Agora, encerrei." Mas completa: "Só vou ficar com o botox, que não faz mal."

Transtorno. Psicóloga clínica e especialista em Sociedade e Cultura pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Walnei Arenque alerta que algumas pessoas e profissionais não conseguem perceber o excesso de vaidade e problemas psicológicos, como o transtorno dismórfico corporal, que "afeta a percepção do paciente sobre a própria imagem", fazendo com que ele veja imperfeições que não existem.

Arenque diz que familiares e amigos devem ficar atentos a sinais que pacientes dão, principalmente as mulheres durante a adolescência. "Muitas dessas pessoas deixam de sair ou ficam horas na frente do espelho colocando defeitos em si."

Ricardo Monezi, pesquisador e especialista em Medicina do Comportamento da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), avalia que as pressões sociais e culturais interferem no comportamento das pessoas, fazendo com que elas busquem se encaixar em determinados padrões. "Há um bombardeio da sociedade que dita padrões de beleza irreais, porque sabemos que muitos retoques são feitos por computador. As pessoas acabam buscando recursos 'milagrosos' e se submetem a procedimentos que podem ter resultados desastrosos."

O cirurgião plástico e integrante da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica Luís Cláudio Barbosa conta que já se deparou com casos de reações graves por uso de PMMA, um produto semelhante ao hidrogel. "Atendi casos que iam desde reação de corpo estranho do organismo até infecções graves, com áreas de necrose de pele e músculo extensas."

Samantha Enande, dermatologista da Sociedade Brasileira de Dermatologia e Medicina Estética, recomenda que as pessoas procurem informações sobre os tratamentos. "O complicado desses casos é essa busca desproporcional pela beleza. E não são pessoas tão leigas. As pessoas precisam se preocupar com os riscos. Os tratamentos estéticos estão aí para ajudar."

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