O cotidiano do não jovem

O cotidiano do não jovem

Crônica

Ignácio de Loyola Brandão, O Estadao de S.Paulo

04 Abril 2010 | 00h00

Cheguei ao correio, fila enorme, perguntei pela prioridade para idoso. O funcionário disse: "Entre na frente do primeiro da fila." Constrangido me coloquei à frente do sujeito. Fiquei de costas, não quis sentir o peso da ira no olhar. Nesse momento, entrou mais velho do que eu. Já foi se metendo na minha frente, conhecia o código. Os caixas demoravam, outro idoso veio com uma batelada de coisas, tem empresas que os contratam como motoboys, é forma de dar emprego. Quando vi, havia sete idosos antes de mim. Seria o dia mundial da categoria? Azar dos não idosos atrás de nós.

Uso muito metrô, ônibus, vou de táxi ou a pé. Mais cômodo que congestionamentos. Entrei no metrô, não havia lugares vagos, fiquei de pé. Um idoso, acomodado nos assentos prioritários levantou-se, me deu o lugar. Mesmo porque nenhum jovem, ninguém mais moço se dignou a levantar. A tática é fingir que dorme, olhar para o outro lado, ficar concentrado num livro ou revista, mostrar-se distraído. Recusei a oferta. E ele, o educado: "De modo algum, vejo que o senhor é bem mais velho!" Sentei-me. Não sei se indignado, se contente por não viajar em pé.

Congonhas, chamaram meu voo. Idosos, gestantes, deficientes, portadores de cartões fidelidade fiquem à direita, avisou a empresa aérea. Passei para a direita, um senhor me fuzilou: "Onde pensa que vai?" Usar minha prioridade. Ele respondeu rapido: "O senhor é espertinho, isso sim. Vai me dizer que tem mais de 60 anos?" Concordei, fui para o fim da fila, senti-me elogiado. Mas achei que ele estava me confundindo com a fotografia que sai no alto de minha crônica aqui no Estadão e que me favorece.

O ônibus parou, entrei, mostrei o RG, o motorista me olhou. "Idoso?", indagou. "Não está na cara a minha idade?" Ele sorriu: "Pergunto, porque o senhor não sabe o que entra aqui de idoso plastificado". Paguei sem hesitar. De qualquer modo, há vantagens. Posso ir a qualquer bar ou restaurante que ali estão marcadas no asfalto pelo CET, as vagas para nossa idade. Não precisaremos, de manobristas. Necessário apenas colocar um selo no carro, mas onde buscá-lo. Temo chegar lá e encontrar uma fila gigantesca. E ai como faço? Idoso pode entrar na frente do outro? Ou haverá separação por idade? O consolo é que, sabendo que no futuro seremos maioria, então os jovens é que pedirão prioridade no avião, correio, banco, repartição. No futuro, as filas longas, as demoras serão porque seremos todos idosos, ou avançados na idade, ou da melhor idade, ou da terceira, ou....

O ESCRITOR E CRONISTA IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO NASCEU EM ARARAQUARA (SP) HÁ 73 ANOS E MUDOU PARA SÃO PAULO PELA PRIMEIRA VEZ EM 1956

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