O carioca Lobão acha o rumo em SP

Músico nunca foi tão feliz e produtivo. Está melhor, compõe melhor. E insiste que a cidade onde vive há dois anos foi fundamental nisso

Bruno Paes Manso, O Estado de S.Paulo

25 Abril 2010 | 00h00

 

 

Refúgio. Lobão no estúdio que montou em sua casa, em uma rua sem saída do Sumaré, onde ele e a mulher acordam ao som do canto de passarinhos

    Para muitos cariocas que valorizam a beleza natural do Rio de Janeiro, o amontoado de prédios de São Paulo chega a assustar e até mesmo desorientar os acostumados a ter o mar como referência. Para o carioca João Luiz Woerdenbag, o Lobão, viver longe das praias do Rio é um alento. "Acho que essa overdose de beleza natural "babaquiza" e tira qualquer visão crítica. A Praia de Ipanema é linda, mas também é muito suja, onde você pisa em cocô de gente. O substrato da cultura carioca é aplaudir a beleza natural, um tipo de neo-narcisismo. Mas, enquanto o cara está aplaudindo o pôr-do-sol no Rio, eu já fiz cinco músicas aqui em São Paulo", diz.

Confira:

Apresentação de "Song For Sampa" ao vivo

Aos 52 anos, dois deles morando em São Paulo, o roqueiro solta uma das muitas frases que em pouco mais de uma hora de entrevista revelam os motivos que o fizeram cair de amores pela cidade.

A conversa começa às 21 horas numa padaria barulhenta ao lado da MTV, onde trabalha. Lobão chega a pé, cumprimenta os garçons, encontra três grupos diferentes de amigos, jovens tatuados que trabalham na emissora. Está claramente em sua praia.

Demorou quatro minutos para percorrer o trajeto partindo da casa onde vive com a mulher, Regina, em uma rua sem saída e silenciosa do Sumaré, na zona oeste, onde os dois acordam ao som do canto de passarinhos. No sobrado, montou um estúdio, onde pode exercitar-se tocando bateria duas horas por dia, o que o ajuda a ficar sarado. Como mora perto da MTV, onde apresenta os programas Debate e Lobotomia, quase não sofre com os congestionamentos da metrópole.

Lobão é uma figura complexa e controversa. Compreender o que ele sente depois de uma breve entrevista é tarefa pretensiosa. Mas o roqueiro também é transparente e parece falar com a sinceridade de alguém que se senta no divã de um analista. Durante o papo, come quatro pedaços de pizza de mussarela e toma cinco chopes. E é só sentimentos quando relaciona sua trajetória com São Paulo. Prova é a música Song for Sampa, ao lado, ainda inédita. "Aqui eu me sinto pertencido. Fui absorvido pela cidade, que me acolheu. No Rio, eu tinha poucos amigos. Dois, talvez."

Desconectado. O roqueiro verborrágico e irreverente, que aparenta extroversão, viveu momentos de solidão e raiva na Cidade Maravilhosa. Lá, diz que sempre se sentiu ilhado, sem laços. "É aquela coisa do "E aí, brother?", uma falsa disponibilidade que no fundo é superficial, não vai para frente."

Nascido em Ipanema, tentou se enturmar, em vão, desde criança. Era um garoto superprotegido, que levava cascudos da molecada do futebol. "Minha família me vestia estilo anos 1930. Eu me sentia um inapto." Depois de grande, em 1979, tentou o suicídio. Quando o sucesso veio, nos anos 1980, continuou desconectado, sem contato com os roqueiros da mesma geração, que ele via com desprezo. Em 1984, perdeu a mãe, que se suicidou. No enterro, tocou bumbo com a camisa do Botafogo.

Preso em 1987 por causa de um galho de maconha, conheceu muita gente na cadeia, manteve os laços quando saiu e chegou a acreditar que só seria bem aceito pelos bandidos dos morros. Conta que, no tempo em que conviveu com traficantes, viu pessoas serem executadas e esquartejadas. Chegou a pensar em invadir o Palácio das Laranjeiras para sequestrar o governador Moreira Franco. "Pensei: "se querem criar um bandido, vão ter um bandidão"."

Casos que ajudaram a construir o mito, histórias que serão detalhadas e contextualizadas na biografia que escreve com o jornalista Cláudio Júlio Tognolli. Começou com 870 páginas. Atualmente, tem pouco mais de 500. Nessa trajetória sofrida, São Paulo aparece como um "alento para o recomeço". É como se fosse, no livro, o final feliz.  

 

Felicidade. Na cidade que o absorveu, ele diz que nunca foi tão feliz e produtivo. Compõe melhor. É uma pessoa melhor. Pergunto se não é a maturidade. Ele insiste que a cidade tem papel importante. "São Paulo abraça, acolhe as diferenças. No Rio, tem o cara da zona sul e da zona norte. É pouco variado. Não tem lugar para mim. Aqui não. Tem várias turmas juntas. Você pode ter o yuppie mais careta da Paulista e a pessoa mais louca convivendo na cidade. E eu posso criar o meu mundinho dentro desse mosaico."

Durante a noite, Lobão tem vida intensa. É chamado para festas, percorre shows de novas bandas, janta e toca com amigos. "É bom observar aqueles que estão prestes a acontecer. O circuito é excelente, tem o Projeto SP, o Clash. Acho que a gente está fazendo uma nova cena, com coisas mais criativas. No Rio, existe a Lapa, onde 99,9% são samba, chorinho e forró universitário. E o Circo Voador, que ainda resiste".

Boa parte dos que estão prestes a acontecer ou já aconteceram, por sinal, fazem parte da alcateia: Pitty, Catatau, integrantes das bandas Cachorro Grande, Cidadão Instigado. Na quarta-feira, Lobão faria participação especial em um show do guitarrista Carlini, "herói e amigo" que tocou com Tutti-Frutti e Rádio Táxi. Na quinta, iria à casa de Marcelo Tas, apresentador do CQC, comer pizza. "Quero comprar uma casa e morar para sempre em São Paulo."

São 22h20. Pergunto se não é melhor encerrarmos a entrevista, já que o programa que apresenta começa, ao vivo, em dez minutos. Ele diz que dá tempo para concluir. Insisto para que ele aponte os defeitos de São Paulo. Lobão não consegue fugir do lugar comum. Critica a poluição do Rio Tietê, o trânsito e reclama dos motoboys. Conta de como gosta de tocar jam sessions na Rua Teodoro Sampaio.

São 22h29 e aparece um produtor, com microfone sem fio, que entra na padaria para levá-lo ao estúdio pelo braço. Lobão ainda para para falar com o amigo José Trajano sobre figurinhas da Copa. Chega ao estúdio pedindo um banheiro porque está apertado. Não dá tempo e o programa começa. "Boa noite. O programa de hoje é sobre o voto de castidade entre os padres e pedofilia na Igreja." A 10 mil por hora, ele realmente parece estar feliz.

SONG FOR SAMPA

"Eu ainda nem senti o que faz você brilhar e os automóveis passam pelas ruas"

Caminhando com ninguém/ a cidade ao meu redor/ eu quero um alento para um recomeço/ e vai acontecer eu vou te encontrar pra gente sair, sonhar feliz pelas noites sem luar/ e de que vale o céu/ se a nebulosa de faróis vem me dizer/ que isso é pra sempre/ passageiros no metrô/ Rua Augusta e roquenrou / eu penso, essa é minha cidade / eu jamais vou te esquecer/ vou sempre te amar mesmo / em algum tempo depois do futuro

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