Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

'Nuit Blanche' à brasileira

O primeiro show da primeira Virada Cultural, no Parque da Independência, vira marco da cidade

Edison Veiga, O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2015 | 16h00

Trombonista da Orquestra Experimental de Repertório, grupo do Teatro Municipal de São Paulo, desde 1991, João Paulo Moreira não imaginava que a apresentação do dia 19 de novembro de 2005 entraria para a história da cidade. A atração, no Parque da Independência, na frente do Museu do Ipiranga - como é conhecido o Museu Paulista, da Universidade de São Paulo -, abriu a primeira edição da Virada Cultural. Dez anos depois, o evento está consolidado no calendário cultural paulistano.

“Era uma novidade e, na realidade, nós não tínhamos a dimensão do que essa iniciativa alcançaria com o passar do tempo”, comenta o músico, hoje com 50 anos. “Lembro que era um visual lindo. Do palco podíamos ver o Museu do Ipiranga lá na frente, era lindo, lindo, lindo.” 

Moreira conta que naquele dia foi ao Parque da Independência de carona com um amigo - ele mora em Arujá, na região metropolitana de São Paulo. Chegou por volta das 11 horas e, junto com os outros 99 músicos da orquestra, fez a passagem de som de praxe. “Também tínhamos de equilibrar microfones, ver como as coisas funcionariam em um evento do tipo, ao ar livre”, explica.

“Naquela edição, confesso que não assisti a outros eventos da Virada. Mas nos anos seguintes, sim”, conta Moreira. “Acho a iniciativa sensacional, como forma de democratização da arte, da cultura. Na minha opinião, nada até hoje mexeu tanto com a cidade de São Paulo. Nada, nem a Copa do Mundo.”

O evento nasceu inspirado na “nuit blanche” francesa, que é fundamentada pela inversão de expectativas - museus abrindo de madrugada, shows durante o dia. Na versão paulistana, as mais de 24 horas de atrações se espalham pela cidade, principalmente na região central - e a ideia é que o público se aproprie dos espaços por meio de todas as manifestações artísticas, sem cobrança de ingresso. “É um barato, tanto pelas experiências - houve uma edição em que nós, da orquestra, tocamos com o grupo (de heavy metal) Sepultura - quanto pelo público. Pelas roupas, você pode imaginar para que tipo de evento cada pessoa vai”, diz Moreira.

Daquela edição pioneira para a atualidade, a Virada só cresceu - em público e em importância. O recorde foi em 2013, com 4 milhões de pessoas se divertindo nas ruas da cidade. A edição do ano passado registrou 1 milhão a menos. Por outro lado, os problemas também aumentaram. Em 2007, confronto na Praça da Sé, durante show dos Racionais MC’s, deixou seis feridos, 12 lojas depredadas e 14 presos. Arrastões e pequenos crimes passaram a ser recorrentes. No ano passado, foram 56 detidos em flagrante e 108 indiciados no total durante o evento. 

Tudo isso, aliado a um possível esgotamento do modelo - muitos defendem uma maior pulverização de eventos culturais ao longo do ano e por todos os bairros da cidade -, já fazem o atual secretário municipal de Cultura, o arquiteto e urbanista Nabil Bonduki, de 59 anos, repensar a Virada. Em recente entrevista ao Estado, ele admitiu que há uma tendência em “reduzir o número de palcos para aumentar a segurança”.

“Sem dúvida, a Virada Cultural foi um primeiro momento de apropriação do espaço público da cidade”, afirma Bonduki. “Foi muito importante há 10 anos. Mas, hoje, nós temos um desafio, que é fazer com que isso não seja simplesmente um fim de semana no ano.” 

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