TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Novos blocos 'turbinam' carnaval de rua em SP

Amigos, músicos e vizinhos criam agremiações para atrair milhares de foliões na capital paulista, que deverá ter número recorde de blocos inscritos

Paula Felix e Priscila Mengue, O Estado de S. Paulo

15 Janeiro 2018 | 03h00

SÃO PAULO - “E se a gente fizesse um bloco de carnaval?”. De churrasco entre amigos a um grupo de Facebook, a pergunta foi repetida inúmeras vezes por São Paulo - mas não ficou só na sugestão. O carnaval de rua promete bater um novo recorde neste ano, com 509 agremiações inscritas, o que pode mudar até a divulgação da programação oficial. Entre os envolvidos, há aqueles que já apostam que a festa paulistana vai superar a carioca em tamanho.

No caso do organizador de eventos Diego Leporati, de 32 anos, a ideia veio após fazer uma faxina em casa. “Terminei, deitei no sofá e fui mexer no grupo”, lembra, ao se referir ao “Cecílias e Buarques”, que reúne, no Facebook, moradores da Santa Cecília e da Vila Buarque, bairros da região central de São Paulo.

“Estava aqui neste domingo cinza pensando em como colorir a vida, quando me veio a ideia: o que acham de criarmos o bloco Cecílias e Buarques”, postou. “O grupo já serve para agregar, mas pensei: que coisa serve mais para agregar do que festa, do que carnaval?”, observa Leporati.

Em três meses, 20 moradores se uniram à bateria do bloco, focada em samba, marchinhas e música popular brasileira. E ele ganhou também uma mitologia própria: “é a história de amor entre a Cecília, uma mulher empoderada, ariana, bonitona, que vai no carnaval e conhece o Buarque, um malandro paulistano meio hipster, com barbinha e camisa florida”, conta o organizador de eventos.

Lançado no sábado, 13, o bloco tem o Minhocão como mascote e pretende trazer uma versão animalesca do viaduto em seu desfile, em referência aos dragões do ano-novo chinês. “Ele vai ter um aspecto meio místico. Quem passar a mão, vai ganhar sorte no carnaval, vai se divertir, beijar na boca”, conta.

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Já, no Bloquinho Pintar de Giz, o Minhocão será atravessado por crianças embalados por músicos convidados, do Bloco ErêTantã. Ele não deve integrar o calendário oficial, pois é parte da programação de uma intervenção artística em que crianças fazem desenhos com giz no asfalto.

“O carnaval tem olhado mais para as crianças”, opina a idealizadora do bloquinho, a jornalista Ana Garnier, de 30 anos. “A decisão de criar o projeto foi inspirada em uma criança da família, em crianças que não têm irmãos, que moram em condomínio ou que têm pouco espaço para brincar”, conta.

Por outro lado, na zona leste, o Cordão da Dona Micaela pretende resgatar o carnaval de rua mais tradicional, com samba paulista e desfile com bonecões. Junto aos músicos, uma atriz interpretará Dona Micaela Vieira, famosa parteira que dá nome à uma praça do bairro. “Pensamos que o carnaval tem a ver com essa questão da parteira, do nascimento, do início do ano”, conta a historiadora Patricia Freire, de 34 anos, integrante da Comunidade do Rosário dos Homens Pretos, que organiza o evento.

Além do desfile, o bloco convida moradores a contribuirem com relatos e informações sobre Dona Micaela, que viveu no bairro entre o fim do século 19 e o início do século 20. “Com o distanciamento cultural, a gente perdeu um pouco dessa referência. Temos poucos registros dela”, conta Patrícia.

Na zona oeste, que atrai grande parte do carnaval de rua paulistano, dois novos blocos prometem chamar a atenção. Um deles é o Filhos de Gil, que vai reunir canções exclusivas do músico Gilberto Gil, a exemplo do que já fazem o Ritaleena (de Rita Lee) e o Tarado Ni Você (de Caetano Veloso), dentre outros.

“Estava fazendo falta”, conta um dos fundadores, o músico Pedro Keiner, de 29 anos, que já teve uma banda que periodicamente fazia shows temáticos de Gilberto Gil. Além do repertório, o bloco quer se destacar por reunir “músicos de formação”. “Sentia muito falta de o pessoal fazer um carnaval mais tecnicamente acertado. Queria um bloco que tivesse uma coisa musical bacana, como é a Charanga (do França)”, compara.

Estreante no carnaval, o Filhos de Gil já se apresentou em algumas festas ao longo do ano. Embora seja fundado por homens, tem mais de 90% da bateria formada por mulheres, que participaram de oficinas de percussão. “Acho que é uma tendência do carnaval”, arrisca Keiner.

Já o Desliga e Vem, também de Pinheiros, vai reunir repertório exclusivo com pagodes dos anos 90, de grupos como Raça Negra e Exaltasamba - autor da canção que dá nome ao bloco. A ideia surgiu em um churrasco entre amigos que integravam os blocos Quizomba e Chinelo de Dedo.

“Sempre brincava com o mestre que queria tocar pagode. Ele dizia: ‘se querem tocar pagode, criem o bloco de vocês'”, lembra a anfitriã do churrasco, a educadora Mariana Manfredi, de 30 anos. Hoje, o mestre do Chinelo de Dedo, Rodrigo Moreira, também lidera a bateria do Desliga e Vem.

“Estamos todos na faixa dos 30 anos. Ouvíamos muito pagode nos anos 90, na nossa adolescência. O objetivo é conversar com esse público, que tem essa ligação afetiva”, conta. “O pagode é um movimento importante. Enquanto o resto do mundo ouvia boy bands, no Brasil a gente ouvia nossas próprias boy bands, que eram as bandas de pagode.”

Crescimento. Nascido no Rio, o editor de vídeo Leo Kaufman, de 37 anos, começou a participar mais ativamente do carnaval de rua quando se mudou para São Paulo, há pouco mais de três anos. “Um grande amigo que tocava em blocos me chamou para uma oficina do Quizomba, onde eu conheci o carnaval de rua de São Paulo, que eu achava que nem existia. Conhecia quase ninguém em São Paulo. Depois dos blocos, conheço milhões”, compara.

Neste ano, além de participar do Desliga e Vem, que é um dos fundadores, ele vai filmar os desfiles de 25 blocos, que, junto de entrevistas, o material deve compor o documentário Histórias de Carnaval, exclusivo sobre a folia paulistana e com previsão de lançamento para 2019. Para ele, o crescimento do carnaval em São Paulo está ligado ao surgimento de oficinas de percussão, como ocorreu no Rio, com o Monobloco, dentre outros.

“Mostrou para um monte de gente que poderia fazer carnaval com ritmos que não eram só marchinha, frevo ou samba, e, ao mesmo tempo, formaram um monte de batuqueiros, que depois criaram seus próprios blocos”, arrisca.

Diretor da Associação Cultural Acadêmicos do Baixo Augusta, Alê Youssef diz que o aparecimento de novos blocos é um movimento crescente e que reflete o desejo do paulistano de aproveitar o carnaval na rua. “Todos os novos blocos são bem-vindos. Esse movimento está relacionado com uma questão maior do redescobrimento de uma cidade mais humana, colorida e para as pessoas. É a expressão desse desejo contido há muito tempo de caminhar pelas ruas do centro e de outros bairros”, aponta.

Da mesma forma, o professor de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Micael Herschmann, acredita que o fluxo de pessoas entre Rio e São Paulo possa ter influenciado no crescimento do evento na capital paulista. “Os próprios blocos do Rio estão sendo convidados a tocar em São Paulo”, comenta. É o caso, dentre outros, do Bloco da Preta, do Sargento Pimenta e do Monobloco.

Segundo o professor, o carnaval de rua do Rio vive uma “retomada” desde os anos 2000. “Ele nunca foi abandonado completamente, mas atraía poucas pessoas, com uma geração jovem que voltou a ouvir samba, foi nessa época que teve a explosão de público na Lapa”, explica. A mudança maior veio, contudo, alguns anos depois, com blocos que perceberam que também poderiam misturar outros ritmos ao samba, como o rock e o jazz.

“Não é mais o carnaval do passado, é um resgate, mas eles também se apropriam. Até a forma de articular é diferente, ocorre muitas pelas redes sociais”, ressalta. Para ele, o carnaval de rua é uma tendência em contraste com a decadência da festa em clubes. “Essa possibilidade de você sair em cortejo pela cidade, brincando, se divertindo, paquerando, é muito atraente. O clube é um espaço às vezes confinado, não tem os mesmo atrativos”, compara.

Herschmann destaca ainda que, com a expansão, o carnaval de rua também expandiu a “temporalidade” do evento. “O que era pensado para ser uma festa de quatro dias se tornou uma festa de verão”, aponta.

Já a historiadora Olga Simson, autora do livro Carnaval em Branco e Negro, acredita que o efeito tenha relação com um desgaste de quem participa dos desfiles tradicionais. “Parece que parte dessas pessoas estavam cansadas das exigências de fantasias, dos ensaios, das obrigações a cumprir, e queriam poder sair de maneira mais informal, barata e divertida.”

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