Estadão
Estadão

Novo discurso marca 100 dias de Kelman

Com carta branca do governador, presidente da Sabesp gerencia crise hídrica com ações de transparência à frente da empresa

Fabio Leite, O Estado de S.Paulo

19 Abril 2015 | 02h01

A conta-gotas, o polêmico racionamento de água na Grande São Paulo está sendo incorporado ao glossário oficial da crise hídrica. Síntese da gestão Jerson Kelman, que completa neste domingo, 19, 100 dias à frente da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), a mudança de postura da estatal tem dado mais transparência às ações de combate à seca e revelado contradições no discurso do governo Geraldo Alckmin (PSDB) ao longo de 2014.

Aquilo que era negado ou omitido sobre a crise no ano eleitoral começou a ser admitido e divulgado pela Sabesp em 2015. Primeiramente, o alerta sobre a real dimensão do problema e de que haveria mais "sofrimento à população" na posse de Kelman, no dia 9 de janeiro. Na sequência, vieram a abertura de dados sobre mananciais, a lista dos grandes consumidores de água, os horários de redução da pressão e, por fim, a admissão do racionamento, feita há três semanas.

Embora Alckmin tenha desmentido Kelman dias depois, foi o racionamento intensificado pelo engenheiro nos últimos três meses que garantiu uma pequena recuperação do nível do Sistema Cantareira durante o verão e evitou a adoção de rodízio no abastecimento, que, para o dirigente, "é muito pior do que o que nós fazemos hoje".

Segundo o Estado apurou, a medida que poderia deixar bairros sem água por até quatro dias seguidos já foi descartada neste ano, mas isso não será anunciado para evitar queda na economia espontânea da população.

No sábado, o Cantareira operava com -9,3% da capacidade, segundo o novo índice que começou a ser divulgado nesta semana pela Sabesp, após determinação da Justiça. Pelo índice antigo, o reservatório está com 19,9%, mesmo valor do dia anterior. São 76 dias sem queda do manancial.

As recentes medidas de transparência adotadas pela Sabesp, que também pretende colocar em seu site nas próximas semanas um canal de acompanhamento das obras emergenciais, como a transposição de água da Represa Billings, do Sistema Rio Grande, para o Alto Tietê, ainda são insuficientes para cessar as críticas à gestão da crise. "As obras estão sendo implementadas sem que nós tenhamos a oportunidade de discutir quais são as melhores, quais têm o melhor custo-benefício", critica a urbanista Marússia Whately, do movimento Aliança pela Água.

Carta branca. Ex-presidente da Agência Nacional de Águas (ANA) e da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Kelman assumiu o cargo em janeiro a convite do então recém-empossado secretário de Recursos Hídricos, Benedito Braga, presidente do Conselho Mundial da Água, cuja nomeação fazia parte de uma estratégia de Alckmin para dar mais credibilidade à gestão da crise e fazer a transição de discurso, uma vez que a estiagem se acentuava. Antecessor de Braga, Mauro Arce, hoje presidente da Companhia Energética de São Paulo, dizia, no auge da seca, que o Cantareira poderia encher em um ano.

À época, Kelman era professor de Recursos Hídricos do Instituto de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e fazia coro às críticas à falta de transparência. "O Estado de São Paulo, no caso da água, e o governo federal, no caso da energia, relutam em falar em economia e racionamento. É certo sinalizar para a população que está tudo bem? Não. Está errado", disse ao Estado em novembro de 2014.

A dupla recebeu carta branca do governador para fazer o que precisava ser feito. A linha anterior de que se fosse preciso seria usada "até a última gota" do Cantareira deu lugar a um rígido plano de redução da captação do sistema para evitar o colapso do manancial. A nova estratégia reaproximou o governo paulista da Agência Nacional de Águas (ANA), do governo Dilma Rousseff (PT), que já cobrava uma restrição maior na retirada do Cantareira.

Com a adoção de multa para quem elevar o consumo de água e com a proposta de reajuste de 22,7% na tarifa para compensar o prejuízo provocado pela crise, Kelman tem cumprido na Sabesp um papel semelhante ao do ministro Joaquim Levy à frente da Fazenda. "Tomaremos medidas duras, difíceis. Precisamos do entendimento dos líderes políticos, dos formadores de opinião, da imprensa, para, juntos, em uma sociedade madura, enfrentar isso como outras sociedades enfrentam uma dificuldade da natureza", disse, há cem dias.

Mais conteúdo sobre:
Jerson Kelman Sabesp Sistema Cantareira

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.