Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Novo chefe terá letalidade da PM como desafio

Emocionado, coronel assume corporação com a meta de estreitar relação com a tropa

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

05 Maio 2018 | 03h00

No sábado, apenas dois dias após ser nomeado como novo comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo, o coronel Marcelo Vieira Salles foi a Diadema, no ABC, prestar solidariedade no velório do cabo Matias, morto com oito tiros. O ato simbolizou dois dos principais desafios do coronel ao assumir o posto mais importante da PM: estreitar a relação entre comando e tropa e combater a letalidade envolvendo policiais.

Ex-chefe do Comando de Policiamento de Área Metropolitano-5 (CPA/M-5), responsável pelo policiamento da zona oeste da capital, o coronel Salles é a primeira mudança do governador Márcio França (PSB) na cúpula da Segurança Pública. Com perfil de valorizar a polícia comunitária e os direitos humanos, ele substituiu o coronel Nivaldo Cesar Restivo.

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A cerimônia da passagem de comando ocorreu ontem, na Academia do Barro Branco, zona norte. Antes de fazer um discurso emocionado, foi o próprio coronel Salles quem, do palanque, deu o comando “à vontade” à tropa para que os policiais em formação saíssem da posição “descansar” – um ato incomum em solenidades. “Somos um só corpo e terão, neste comandante, o máximo de energia que São Paulo merece.”

Embargou a voz ao cumprimentar o governador. Chorou e foi aplaudido ao falar do pai, o subtenente da reserva da PM Nelson Almeida Salles. Também citou São Tomás de Aquino e um texto atribuído ao ex-presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt. “Não é o crítico que importa. (...) O crédito pertence ao homem da arena, cuja a face está manchada de poeira, suor e sangue.” 

Por sua vez, França adotou um discurso mais direto. “A nomeação do comandante é menos importante que a atuação dos senhores a cada dia”, disse. “Por isso, eu gostaria muito que todas as pessoas, a imprensa de maneira especial, pudessem respeitar esse trabalho e pudessem poupar esses homens.”

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Letalidade. Em 2017, 877 pessoas morreram em supostos confrontos com PMs. Para comparação, o número de vítimas de homicídios comuns foi de 3.504 no ano. No primeiro trimestre deste ano, porém, houve queda de 11,5%. Já o índice de PMs mortos quase dobrou em 2018, passando de 7, entre janeiro e março de 2017, para 13.

O quadro é visto “com muita preocupação”, segundo Salles. A seu favor, o comandante-geral tem o histórico do CPA/M-5, que reduziu ocorrências de letalidade sob seu comando. “A morte é de se lamentar. Quando é a do policial, impõe uma reflexão maior, seja no preparo da nossa tropa, seja na atenção com a prevenção primaria”, disse. “A postura voluntária do policial de querer prender, de atuar, por vezes, redunda nisso.” O comandante ressaltou a “qualidade das polícias” e a queda dos últimos índices criminais, segundo dados da Secretaria da Segurança. “Eu me sinto seguro em São Paulo.”

Filho de PM, coronel é tido como agregador

Um fato curioso marca a trajetória do coronel Marcelo Vieira Salles na Polícia Militar. No mesmo dia em que se tornou aluno da Academia do Barro Branco, em 1985, o pai dele, o subtenente Nelson Almeida Salles, entrou para a reserva da PM. “(Foi) minha maior referência de ser humano, de pai, de homem público e de brasileiro”, diz o novo comandante-geral, que já passou pela Cavalaria, pela Casa Militar e foi chefe de comando de área.

Coronel Salles é amigo e homem de confiança do governador Márcio França (PSB). Ele assume a PM após um período de incertezas entre as polícias, alimentada pela discussão da Polícia Civil passar a fazer parte da Secretaria Estadual de Justiça e Direitos Humanos – e não mais da Segurança Pública (SSP). O governador descartou tomar a medida por decreto.

O comandante-geral é casado há 32 anos, tem três irmãos e um filho. “É um oficial operacional, agregador, vocacionado para o trato com as pessoas”, declarou o secretário da Segurança, Mágino Alves Barbosa Filho, que há um ano e dois meses havia promovido a primeira mudança no comando da PM sob sua administração.

Na época, o coronel Ricardo Gambaroni, que fez carreira no Grupamento de Radiopatrulha Aérea da PM (GRPAE), deu lugar para o coronel Nivaldo Cesar Restivo, que chefiava a Tropa de Choque. Restivo, agora, passa a atuar como chefe de gabinete do secretário.

Salles e Restivo têm relação próxima e serviram juntos na Tropa de Choque. O ex-comandante-geral é da turma de 1986 do Barro Branco. O atual, de 1989. “A Polícia Militar está em melhores mãos”, declarou coronel Restivo no discurso de passagem de comando, ontem. “Herdo um comando robusto”, Salles devolveu a deferência.

Perfil. Bacharel em Direito, coronel Salles é apresentado como “especialista em tropa montada e controle de distúrbios civis”. Também foi ajudante de ordens do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), comandante da Cavalaria e atuou na Defesa Civil e Casa Militar.

Estava no Comando de Policiamento de Área Metropolitano 5 (CPA/M-5), responsável pelo policiamento da zona oeste da capital, que abrange, entre outras áreas, Pinheiros e Vila Madalena. “O carnaval reuniu mais de 1,5 milhão de pessoas. Tínhamos policiais de folga trabalhando por absoluta necessidade do serviço. Eu me vi na obrigação de colocar o colete refletivo e o capacete e ir trabalhar com eles.”

Com discurso de tratar por igual comandantes e comandados, Salles disse que vai se pautar pelo diálogo. “Vamos procurar valorizar mais aquele policial da ponta da linha, que está de barco, a cavalo, a pé, de viatura, de helicóptero, e que é a razão da instituição.” /COM MARCELO GODOY

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