No Rio, vítimas da chuva dividem escola com alunos

Desabrigados do Morro do Borel protestaram contra as condições: eles reclamam que espaço é insuficiente para todos

Gabriela Moreira, do Rio, O Estado de S.Paulo

15 Abril 2010 | 00h00

Um protesto de moradores abrigados numa escola municipal no Morro do Borel, na Tijuca, zona norte, expôs uma situação que atinge outros bairros da capital e de Niterói e São Gonçalo, na região metropolitana. Unidades de ensino voltaram a funcionar mesmo mantendo desabrigados em suas dependências. Segundo as secretarias estadual e municipal de Educação, 18 escolas servem de abrigo. Dessas, sete reiniciaram as aulas.

O Ciep Doutor Antoine Magarinos Torres Filho, no Morro do Borel, que tem 540 alunos (da creche ao 5.º ano), abriga 223 pessoas. Ontem, as aulas foram suspensas por pressão dos desabrigados que reclamam das condições do local. "Aqui só tem um banheiro e temos de dividi-lo com os alunos. O refeitório também não tem espaço para todos. Tenho almoçado às 16 horas", reclamou Maria das Graças Jarbas David, de 37 anos, que está abrigada na biblioteca da escola.

Remoção. Ela e os demais desabrigados querem a inclusão do Morro do Borel na lista de favelas que terão casas removidas por estarem em área de risco.

Segundo o secretário municipal de Assistência Social, Fernando William, a comunidade não consta da lista de emergência de remoção, mas será vistoriada pela Defesa Civil, para inclusão no processo. William esteve no local para conversar com os manifestantes e propôs a mudança do abrigo para um clube desativado, no Alto da Boa Vista, distante 6 quilômetros da comunidade.

A expectativa do secretário é de que, dentro de uma semana, a Defesa Civil tenha concluído os laudos de interdição da comunidade e os moradores possam ser incluídos no programa de Aluguel Social, que destina R$ 400 para locação de imóveis em áreas fora de risco. Até agora, as chuvas no Estado deixaram 251 mortos - 165 em Niterói.

Segundo ele, o reinício das aulas no Borel e em outras escolas foi pedido das famílias. "Os alunos, muitas vezes, não têm o que comer fora da escola. Essa convivência, em outras unidades, tem sido pacífica."

Propina. Uma ação de reintegração em um conjunto popular em São Gonçalo, região metropolitana, revelou um suposto esquema de corrupção na Secretaria Municipal de Habitação. A prefeitura pretendia levar ao local famílias desabrigadas pelas chuvas. Mas outras pessoas que já o haviam invadido afirmam terem pago propina ao funcionário da prefeitura responsável pela organização do conjunto. A taxa, que variava de R$ 200 a R$ 500, garantia que os invasores tomassem posse das casas.

Com a ajuda da Guarda Municipal e de PMs, três famílias foram retiradas ontem. Moradora do conjunto há dois meses, Maria Luisa Porto, de 65 anos, diz que até recebeu um comprovante de pagamento da taxa de propina. / COLABOROU CLARISSA THOMÉ

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