No Parque da Luz, uma peça em silêncio

Grupo de 16 atores escolheu coreto como cenário para peça com 300 personagens

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2010 | 00h00

Não é todo dia que uma atriz corre nua pelo Parque da Luz, no Bom Retiro, seguida por um cachorro vira-lata que não faz parte do espetáculo. "Tenho pânico dele, fico descontrolada, me atrapalha na concentração", queixa-se Maria Laura Nogueira, de 28 anos. Ela está no elenco de A Hora Em Que Não Sabíamos Nada Uns dos Outros, que estreia hoje, no coreto do parque.

Em aparições que duram segundos, 16 atores interpretam cerca de 300 personagens, sem dizer uma palavra. "No último ensaio gritei um palavrão pro cachorro, imagina, em uma peça sem falas", conta Maria Laura.

Logo no começo do espetáculo, os personagens caminham simetricamente, olhando para um ponto distante, como se estivessem participando de um desfile de moda. Vão surgindo comissários de bordo, duendes, garis, figuras de época, secretárias com cafezinho, skatistas, peruas.

O diretor Marcelo Lazzaratto explica que sua intenção é "conceber o acaso". "Isso depende de um rigor muito grande. Não se trata de fazer cada dia o que dá na telha. O acaso é ensaiado, exige disciplina", diz . Ele sabe que não pode se estressar com o cachorro nem com outros circunstantes do Parque da Luz, como pássaros, prostitutas, crianças, visitantes da Pinacoteca e travestis. É o que ele chama de "inevitável dado de realidade em um espetáculo ao ar livre".

Ensaio. Na quarta-feira, ele e a produção da Companhia Elevador de Teatro Panorâmico, que está completando dez anos, convocaram pessoas de passagem pelo parque para assistir ao ensaio geral do espetáculo.

Encantado com uma atriz que entra em cena e sorri sinceramente na sua direção, o segurança pernambucano Adílson dos Santos, de 36 anos, chega a pensar que ela abandonou repentinamente a cena para dar atenção a ele. "A mulher tá rindo pra mim", comenta com o colega.

Dois degraus acima, o corretor de seguros Wilson Andrade, de 61 anos, blazer, colete de lã, mocassim e pasta, pergunta: "Pra que serve isso (o espetáculo)?" Ele estava indo para casa, no Ipiranga, quando resolveu aceitar o convite da produtora. Tem esperanças de ainda ser filmado. "Será que vão gravar?"

A trilha sonora é composta por trovões, gorjeios de passarinhos, sinfonias. E de silêncios. "Os personagens passam sem dizer nada e, de repente, vem um trovão", define o designer sonoro Rafa Zenorini, de 21 anos.

No último degrau da arquibancada, o jardineiro William Leite, de 32, que trabalha no parque e foi arregimentado para fazer um bico na montagem, filma tudo com o celular. "Eles misturam uma série de situações em uma pegada só", define o estudante Cristian Castellano, de 16 anos, filho de uma costureira paraguaia que mora na região. Diz que está há um ano de férias no Brasil. "Achei um pouco repetitivo", opina o pedreiro José Roberto Alves.

Apesar de tudo parecer improviso, o diretor Lazzaratto garante que o espetáculo tem 1h39 cronometrados. Por vezes, ultrapassa um pouco: chega a 1h39 e 10 segundos. Na quinta-feira, acabou em 1h34.

Já no finzinho, a diarista Marli Cunha, de 40 anos, que mora em Santana, zona norte, e costuma cortar caminho pelo parque até o ponto de ônibus, parece confusa à passagem de um bêbado e de duas velhotas carregando sacolas. "São muitos personagens, ainda não peguei a história."

Lazzaratto dá a resposta clássica de diretores em casos de espetáculos com jeito de instalação. "Não revele o que viu, permaneça na imagem." Explica que esse é o mote do texto do austríaco Peter Handke. O motorista de van Cleisson de Jesus, de 27 anos, não está nem aí para Handke. Ao ver o louco do espetáculo carregando a sirigaita de minissaia, comenta: "Olha lá, véio, o cara xavecou".

Um grupo de bombeiros passa correndo atrás da arquibancada, mas a essa altura o espetáculo já acabou. Foi por acaso mesmo.

PARA LEMBRAR

Recuperada, área verde é espaço cultural

Antes ocupado por lixo e entulho, o Parque da Luz é hoje um dos grandes palcos artísticos e culturais de São Paulo. A mudança começou em 2000, quando o conjunto histórico da região da Luz foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Obras de restauração começaram no mesmo ano, mas o ponto de bondes e o coreto - que hoje é cenário para a peça de 300 personagens - foi entregue apenas em 2006.

Desde então, o parque vem sendo utilizado para atividades a céu aberto. Na Virada Cultural de 2009, por exemplo, foi palco de um passeio noturno à luz de tochas, com música e instalações de fogo.

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